Cantores líricos, instrumentistas, diretores, maestros, técnicos e outros personagens que fizeram e fazem parte da história do Festival Amazonas de Ópera (FAO) se reuniram para reviver a trajetória do evento lírico amazonense num encontro emocionado na noite da última segunda-feira (8), no Centro Cultural Palácio da Justiça. A reunião foi conduzida por Robério Braga, secretário de Estado de Cultura e diretor geral do Festival, e pelos maestros Luiz Fernando Malheiro e Marcelo de Jesus, respectivos diretor artístico e diretor artístico adjunto do FAO, com a participação de convidados diversos.
O encontro teve início com a exibição de um minidocumentário sobre o FAO, destacando as conquistas do evento com números e depoimentos. Logo após, Robério Braga relembrou os episódios que levaram à realização do então 1º Festival de Manaus, destacando a conjunção do desejo da Secretaria de Cultura de dar início ao desenvolvimento de uma política pública para o segmento e o projeto do violinista alemão Michael Jelden de levar ópera ao Teatro Amazonas.
“Ele queria fazer ópera e eu queria fazer ópera, pois entendia que a ópera podia ser a mola propulsora de uma política pública de cultura, como síntese de todas as artes”, recorda ele, lembrando que a Secretaria decidiu investir no projeto apesar do pouco crédito que ele tinha na época. “As pessoas não estavam acreditando muito, mas nós resolvemos embarcar. E fizemos o primeiro festival. Ele (Jelden) trouxe uma orquestra da Bielorrúsia, cenários da PUC-RS, saiu juntando coisas. Nós, o que tínhamos era apenas um coral chamado Coral do Teatro Amazonas, porque ensaiava no Teatro, dirigido pelo Zacarias Fernandes”.
Também presente no encontro, o maestro Zacarias Fernandes destacou que o coral teve papel crucial para a realização do primeiro Festival. “O que o alemão disse foi que a existência de um coro, mesmo que amador, deu condições (para a realização do Festival), pois seria inviável trazer orquestra, coral, tudo de fora”, assinalou ele, regente titular do Coral do Amazonas. “Foi importante, portanto, para todos nós”.
Músicos amazonenses que estiveram nas primeiras edições do evento também deram seus depoimentos. Foi o caso do baixo Josenor Rocha, que estreou como solista na ópera “Alma”, no 2º Festival de Manaus; e do flautista Cláudio Abrantes, selecionado para a Amazonas Filarmônica em sua primeira formação, em 1997. “Para mim foi a realização de um sonho. A cultura, de 1997 para a frente, é outra graças ao Secretário, ao maestro Zacarias e a outras pessoas que fizeram esse Festival crescer tanto”, declarou Josenor.
Cláudio Abrantes destacou a iniciativa da Secretaria de Cultura de ter a ópera como pivô do desenvolvimento da política cultural a partir dali. “Sortudos fomos nós desse projeto cair nas mãos do Robério Braga, que teve a visão e a capacidade de converter tudo isso para a ópera, que englobava todas as manifestações artísticas. Sem isso, não teríamos toda essa prática artística que trouxe geração de emprego e renda para todos nós”, declarou.
O secretário de Cultura ressaltou o papel de Luiz Fernando Malheiro na condução artística do Festival, a partir de 1999. “Ele veio nos fornecer os elementos, as referências e as pessoas para começarmos efetivamente a introduzir a ópera em Manaus”, declarou. Por sua vez, Malheiro destacou o entusiasmo de artistas e técnicos locais em abraçar o trabalho nas produções líricas do FAO, lembrando dos bastidores da tetralogia do “Anel do Nibelungo” de Richard Wagner, ponto alto do Festival, em 2005.
“Lembro dos técnicos cantando ‘Siegfried’ enquanto desmontavam o cenário. Isso jamais seria possível em outro Estado brasileiro”, conta o diretor artístico. “Quando chegamos aqui, de cara já enxergamos esse talento, energia e doação das pessoas, que foram fundamentais para tudo acontecer”.
Marcelo de Jesus, que veio para Manaus ao lado de Malheiro, relembrou sua chegada num depoimento emocionado. “Naquela época, a gente, vindo de São Paulo, sabia o quê de Manaus? Que tinha o Teatro Amazonas e o Encontro das Águas. E hoje sou amazonense, sem sombra de dúvida”, declarou. O primeiro ano, ele acrescentou, foi um divisor de águas na sua carreira: “Em ‘Elixir do Amor’, tive uma coisa que mudou minha vida, e eu pensei, ‘É isso que eu quero, é aqui que quero ficar’. Fui ficando, fui ficando e estou aqui agora”.
“O Amazonas teve a sorte de ter tido esse artista (Malheiro) no momento certo, pois todo o Festival como é saiu da cabeça dele, e o doutor Robério deu a liberdade total desde o início”, completou o diretor adjunto do FAO.
O encontro contou com a participação de talentos da nova geração da Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica e do Coral do Amazonas, como os violinistas José Jonas Júnior e Kimberly Oliveira, e a soprano Carol Martins. “Essa geração é que vai fazer a permanência desse trabalho”, assinalou Robério.
Grande apoio do FAO, a Central Técnica de Produção (CTP) veio à tona no depoimento de seu principal artífice, Marcos Apolo Muniz, hoje Diretor Técnico do Festival. “Ela começou no espaço de uma garagem, no bairro do São Jorge, com peças de ‘Manon’ e ‘A Flauta Mágica’”, recordou ele. Hoje, a Central abriga quase 59 mil peças, de cenários a adereços de cena, num espaço de 9 mil m² na Cachoeirinha.
Apolo apontou ainda a evolução no trabalho dos bastidores, relembrando um episódio em 2001, quando o diretor britânico Aidan Lang exigiu a sincronia entre a música e a movimentação do cenário em ‘Manon’, algo então inédito para a equipe técnica. “E com isso fomos realmente evoluindo junto com o Festival, aprendendo as artimanhas de como funcionava”.
A produtora Flávia Furtado, que trabalha há 14 anos no FAO, apontou a aprovação de artistas e profissionais estrangeiros ao evento amazonense: “Escuto muito de todos os estrangeiros da qualidade que temos aqui no nosso trabalho, da qualidade de pessoas como Apolo, Cieny (Farias, da CTP), Monique (Andrade, diretora do Balé Experimental do Corpo de Dança do Amazonas). O que temos de apoio institucional é impensável no Brasil e na América Latina. O trabalho que conseguimos construir aqui é muito especial”.
O FAO foi ainda o ponto de partida para o desenvolvimento de uma agenda mais ampla de festivais culturais da Secretaria, como lembrou a secretária executiva Beth Cantanhede. “O Festival foi a nossa principal escola, para poder depois fazermos todos os outros festivais, como os de Dança, Cinema, Teatro, Jazz. Formou toda a equipe, não só a equipe ligada ao setor de Eventos, mas toda a Secretaria”, declarou ela.
Nessa evolução à base de muita conquista e aprendizado, Robério destacou que o FAO completou o ciclo que se buscava desde o início do evento, com “a projeção do Estado, mercado para o artista brasileiro, geração de emprego e renda, formação artística e técnica, e a preparação de pessoal nas variadas atividades relacionadas ao Festival”. “Mas vou dizer a vocês: custou todos esses meus cabelos brancos”, finalizou, brincando.
Programação Acadêmica
A Programação Acadêmica do XX Festival Amazonas de Ópera segue no dia 11, com o workshop “A voz na canção erudita”, ministrado por Homero Velho e Pedro Panilha. A formação acontece das 14h às 17h, na Sala de Música do Palácio da Justiça.
No dia 17, no mesmo local e horário, Luisa Francesconi e Panilha se reúnem para ministrar o workshop “Técnica vocal – Ópera e musicais”. E no dia 24, das 14h às 17h, o Atelier de Costura da Central Técnica de Produção (CTP) recebe o workshop “Cenografia e figurino”, com Giorgia Massetani.
Para participar dos encontros, os interessados devem efetuar inscrição no Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro, na Gerência de Formação Cultural e Eventos – Bloco F do Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho (Sambódromo), até o dia 23 de maio.
As vagas para as formações são gratuitas e limitadas. Os encontros realizados no Centro Cultural Palácio da Justiça têm número total de 60 vagas, cada. Já o workshop “Cenografia e figurino” oferece um total de 50 vagas. Mais informações sobre a programação acadêmica pode ser obtida pelo telefone (92) 3232-2440 ou pelo e-mail [email protected].
O XX Festival Amazonas de Ópera (FAO) é uma realização do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e do Fundo de Promoção Social, com o apoio da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC). O evento tem patrocínio máster de Bradesco Prime, e patrocínio da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) e da Ambev.

