Quando tinha 19 anos, em 1983, um jovem chamado Michael McKagan, músico ativo na cena punk de Seattle, resolveu deixar a cidade e se mandar para Los Angeles. Além da óbvia busca por uma cidade maior e mais promissora para um projeto de roqueiro profissional, Duff, como é chamado, tinha um objetivo: fugir da epidemia de mortes ligadas à heroína que grassava em sua cidade. Depois de dúzias de amigos e conhecidos mortos - e de um enterro em particular, em que o orador à beira do túmulo lamentava a overdose do amigo e cochilava enquanto falava, também afetado pela droga -, o rapaz pegou seu carro e dirigiu até LA, onde teve empregos diversos até fundar o Guns N' Roses com amigos que conheceu lá. O resto é história do rock: Duff está vivo e rico (merecidamente), e o Guns vem aí pela enésima vez em setembro.
Integrante da mesma pequena cena roqueira, Chris Cornell, cinco meses mais novo do que Duff, ficou em Seattle, passou pelo tradicional circuito de bandas de garagem e, em 1984, fundou o Soundgarden. Assim como nos contemporâneos Nirvana, Alice In Chains e Pearl Jam - principais nomes do que se convencionou chamar "cena de Seattle" ou "movimento grunge" (irc!), embora as semelhanças sonoras nem fossem tão flagrantes -, o clima frio e chuvoso da cidade estava nas canções e no canto de Cornell, tecnicamente o mais capacitado cantor da cena. Fosse aos berros, em "Jesus Christ pose" (do disco "Badmotorfinger", de 1991), ou na macia "Black hole sun" (de "Superunknown", 1994), tanto a extensão vocal quanto a melancolia eram sempre palpáveis.
No palco, em entrevistas, no que se podia ver na frente das câmeras, Chris era um sujeito alto-astral. "Se fosse o Prêmio Cornell, Bob Dylan já teria sido agraciado há muito tempo", brincou ele com o Nobel dado ao poeta, em entrevista publicada neste Segundo Caderno em dezembro de 2016, época de sua última vinda ao Brasil. O cantor esteve por aqui como artista solo três vezes (2007 e 2013, além de 2016) e uma com o Soundgarden, para o festival Lollapalooza de 2014, em São Paulo. No show do Teatro Bradesco, no Rio, em dezembro passado, mostrava a simpatia de sempre, como quando alguém na plateia pediu "Seasons" e ele improvisou uma canção, repetindo a palavra e falando das estações do ano.
- Depois toco a música de verdade - prometeu, o que cumpriu no bis.
Em circunstâncias diversas, décadas depois, a vida de Chris Cornell foi ceifada pela mesma foice que levou Kurt Cobain, Layne Staley (cantor do Alice in Chains), Andrew Wood (do Mother Love Bone) e muitos outros, músicos ou não, ligados ao rock de Seattle. Em uma cruel ironia, o clipe de "Nearly forgot my broken heart", bela (e triste, claro) faixa do último disco dele, mostra o cantor em uma cela, esperando sua execução por enforcamento. Na ficção roqueira, o caubói sai vivo.

