O cidadão que procura a Justiça não enxerga apenas números. Ele também observa a estrutura colocada à disposição do sistema.
Vê juízes cercados por assessores concursados, servidores efetivos, cargos comissionados, residentes jurídicos, ferramentas tecnológicas e, mais recentemente, recursos de inteligência artificial. Diante desse cenário, é natural que surja uma pergunta simples: toda essa estrutura está sendo utilizada para examinar os processos com a profundidade necessária?
Julgar exige trabalho. Exige leitura, reflexão, comparação de versões, exame de provas e, muitas vezes, disposição para ouvir pessoas. A atividade de um juiz nunca foi concebida para funcionar como uma linha de produção. Quando a lógica da produtividade passa a prevalecer sobre a lógica da investigação dos fatos, o risco de erro aumenta.
Nos últimos anos, multiplicaram-se mecanismos destinados a tornar a Justiça mais rápida. Filtros recursais, julgamentos antecipados, decisões padronizadas, precedentes obrigatórios e ferramentas de racionalização passaram a ocupar papel central no funcionamento do sistema. Muitos deles são importantes e até indispensáveis.
O problema começa quando a busca pela eficiência se transforma em substituta da análise cuidadosa.
É evidente que existem magistrados dedicados, que enfrentam grandes volumes de trabalho sem abrir mão da qualidade das decisões.
O reconhecimento dessa realidade é necessário. Mas também é necessário admitir que a existência de bons exemplos não elimina problemas que o próprio cidadão percebe no cotidiano forense.
A crítica responsável ao Judiciário não enfraquece as instituições. Pelo contrário. Instituições fortes são aquelas capazes de refletir sobre suas falhas e aperfeiçoar suas práticas. A sociedade não espera perfeição dos tribunais. Espera comprometimento.
A Justiça não pode ser medida apenas pela quantidade de sentenças produzidas ou pelo número de processos encerrados. Sua legitimidade depende, sobretudo, da confiança de que cada caso recebeu a atenção que merecia.
Q
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



Aviso