A sobrevivência do homem amazonense ainda carrega o pesado ônus de seu passado histórico: segue desvalorizado, como se as cordas que o prenderam à antiga lógica de colonização jamais tivessem sido completamente desatadas.
A região continua tratada mais como território a ser administrado de fora do que como espaço de vida, trabalho e dignidade de quem nela nasceu e resiste.
A redução dos índices de desmatamento no Amazonas deve, sim, ser recebida como um dado positivo. Preservar a floresta é dever institucional e compromisso com as próximas gerações. O problema começa quando esse resultado é apresentado como vitória suficiente, sem que se enfrente a pergunta mais sensível: o que foi oferecido, em contrapartida, ao homem da região?
Na Amazônia, quase tudo parece nascer primeiro sob o signo da proibição.
Restringe-se a pesca no período do defeso, limitam-se atividades produtivas, impõem-se barreiras ambientais, condicionam-se obras estruturantes e, muitas vezes, a própria subsistência do cidadão do interior passa a depender de autorizações, licenças e fiscalizações sucessivas. A proteção é necessária, mas ela não pode ser a única política pública visível.
A Amazônia não pode continuar sendo o espaço em que o Estado aparece primeiro para impedir e só raramente para construir.
A diminuição do desmatamento, por si só, não autoriza a conclusão de que houve melhoria das condições sociais ou econômicas da população.
Em muitos casos, a redução pode decorrer de maior fiscalização, medo de sanções, retração econômica, ausência de crédito ou simples esgotamento de alternativas produtivas locais. Não se deve presumir, automaticamente, que tenha havido geração de novas oportunidades.
Reduzir o desmatamento é importante; mais importante ainda é fazer com que essa redução venha acompanhada de dignidade, renda e perspectivas reais para quem vive na região.
O verdadeiro desafio é compatibilizar preservação com desenvolvimento regional. A floresta precisa ser protegida, mas o morador da região também precisa ser valorizado.
Energia, infraestrutura, cadeias sustentáveis de pesca, manejo florestal regular, bioeconomia e apoio à produção local são caminhos mais consistentes do que uma política pública fundada apenas no verbo proibir.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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