Embora Manaus não esteja sobre a área de maior volume do SAGA, a capital integra a região amazônica que abriga o maior aquífero subterrâneo do planeta — e ainda assim enfrenta interrupções de abastecimento, perdas elevadas na distribuição e limitações antigas na rede operada pela concessionária local.
É difícil explicar ao cidadão por que uma cidade situada no coração da maior bacia hidrográfica do mundo convive com problemas típicos de regiões áridas. O contraste expõe, com clareza desconfortável, a distância entre a riqueza natural e a capacidade do Estado de transformá-la em serviço público eficiente.
A exigência de preservação permanente — correta do ponto de vista ambiental — não vem acompanhada das compensações necessárias para garantir desenvolvimento regional. O resultado é previsível: tudo é tratado como recurso sensível, sujeito a riscos de exploração desordenada, contaminação e perda de recarga, mas quase nada se converte em investimento, infraestrutura ou oportunidades reais.
Sem contrapartida concreta, a preservação vira fardo social. A cada nova descoberta — petróleo, minérios, biodiversidade, terras raras, agora o SAGA — repete-se o mesmo ciclo: celebração global, restrição local, benefício difuso e pouca melhoria na vida de quem vive na Amazônia.
A região segue responsável por proteger recursos estratégicos que abastecem o imaginário do mundo, mas continua à margem dos retornos econômicos e estruturais que deveriam acompanhá-los.
Enquanto esse modelo não mudar, o maior reservatório de água doce do planeta continuará servindo mais ao discurso do que ao desenvolvimento e não estará livre de celeumas ambientais.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Aviso