BRASÍLIA — O advogado de defesa do presidente Michel Temer, Eduardo Carnelós, classificou o parecer do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) de "brilhante voto" e disse que a denúncia é um "libelo contra a democracia representativa". Ele disse que a formação de uma organização criminosa foi uma "criação mental de Janot". E classificou de "sórdidos" os métodos utilizados por Janot na elaboração da denúncia.
— Será respeitoso acusar o presidente da República de integrar uma organização criminosa sem nada, sem prova? A denúncia tem como vértice a criminação da atividade política. A denúncia apresentada é um libelo contra a democracia representativa, e uma defesa à autocracia — disse Carnelós, ressaltando: — A defesa não atacou a pessoa do ex-procurador-geral da República. A defesa atacou os métodos sórdidos utilizados por Sua Excelência. O ex-procurador novamente buscou a palavra dos empresários da J&F, e já ficou evidente toda a trama que se fez para a gravação daquela conversa mantida entre o empresário e o presidente da República.
Carnelós disse que Janot não apresentou nenhum elemento confiável de prova e criticou o processo de delação de Joesley Batista, da JBS. Para ele, o ex-procurador-geral da República fez uma "licitação"entre delatores.
— Delatores que, para escapar dos malfeitos, se dispuseram a atender o procurador, cujo desejo era acusar o presidente da República para afastá-lo do poder. Há absoluta inexistência de prova, de indício que seja — disse ele.
O advogado ressaltou que Temer não pode ser responsabilizados por atos anteriores ao seu mandato como presidente. Ele assumiu em 2016, e a acusação fala em organização criminosa desde 2006.
— Núcleo da organização criminosa foi fruto da criação mental do ex-procurador — disparou.
Ele elogiou o parecer do deputado Bonifácio de Andrada e disse que o tucano " seguiu o ensinamento de Cristo".
— Vossa Excelência não se intimidou.
Para o advogado, foi feita uma "trama" para viabilizar a conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Temer. Carnelós argumentou que, no diálogo, não se falou em compra de apoios a pessoas como o ex-deputado Eduardo Cunha.
— Como o presidente poderia obstruir uma investigação dizendo: continue assim, continue sendo amigos deles.
Tão logo o relator da denúncia terminou de ler seu parecer, pedindo o arquivamento da peça acusatória, deputados da oposição se alvoroçaram para pedir questões de ordem. O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) pediu que a defesa fosse dispensada e que a comissão partisse logo para a próxima fase do processo, quando certamente haverá um pedido de vista. Em se confirmando o pedido de vista, o caso fica parado por duas sessões e só deve ser retomado na próxima semana.
— Com um relatório desses, não precisa de defesa. Por uma questão de economia processual vamos pular essa parte e pedir logo vista — cobrou Delgado.
O pedido não foi atendido pelo presidente da CCJ, deputado Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), que explicou que a apresentação da defesa é uma questão processual que não poderia ser descumprida. Seguindo o mesmo rito utilizado durante a primeira denúncia contra Temer, os advogados de defesa têm direito a falar pelo mesmo tempo de que dispôs o relator ao apresentar seu voto. Andrada levou 1h04 para ler todo o relatório.
Em seguida, o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) reiterou seu pedido para que a apreciação da denúncia seja fatiada e os deputados possam julgar isoladamente cada um dos acusados. Esse requerimento já foi rejeitado por Pacheco, mas Molon insiste em que ele seja reavaliado.

