BRASÍLIA - O advogado Gustavo Guedes, que defende o presidente Michel Temer, e o perito Ricardo Molina, contratado por ele para analisar a gravação feita pelo empresário Joesley Batista, atacaram o resultado da perícia feita pela Polícia Federal (PF). A PF conclui que não houve edição no áudio, gravado sem o conhecimento de Temer e que é base para o inquérito que investiga o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF).
Guedes destacou que a PF não respondeu, na perícia, todos os questionamentos feitos pela defesa.
— Os quesitos apresentados por mim não foram respondidos nesse laudo. Apresentamos inicialmente 15 quesitos. Professor Molina nos apresentou mais 12. Fachin deferiu e encaminhou esses quesitos. Eles não foram respondidos e talvez seja essa a conclusão, com todo o respeito, ilógica e inapropriada — afirmou Guedes, acrescentando:
— Quando mais rapidamente se pretende uma investigação, quanto mais açodamento sem cumprir os ritos do Código Penal, o resultado é este: menos prova e mais ilação.
Molina, que fez uma perícia apontando mais de 50 pontos com problemas, o que para ele indica que houve edição, também criticou o teor do laudo da PF. Segundo ele, o texto traz vários termos que evitam confirmar categoricamente a veracidade da gravação.
— Esse é laudo é cheio de evasivas, plausibilidades, indicativos. Nunca é conclusivo e categórico - afirmou Molina, citando ainda alguns termos usados pela PF: — "Consistente", "compatível", "aparente". O tempo todo resvalando para não afirmar.
Ele destacou que, mesmo que não haja edição, outro ponto deve levar a anulação da prova: 23% do conteúdo da gravação se perdeu, por ser inaudível.
— Como uma gravação dessas pode ser considerada autêntica? Se foi pelo gravador, por um ET que passou, não interessa, mas 23% da conversa se perdeu. Essa gravação não pode ser usada juridicamente. Ela é, era e continuar sendo considerada imprestável, a não ser para fins políticos - afirmou Molina.
Ele ainda criticou um dos trechos do laudo da PF segundo o qual a conversa entre Temer e Joelsey tem "início, meio e fim".
— O que é isso? Diálogo travado entre dois interlocutores com início, meio e fim. É uma platitude - disse Molina.
Ele lembrou ainda que, apesar de a PF ter os gravadores em seu poder, analisou o áudio gravado num DVD.
— Estranhamente a perícia foi feita no áudio que estava no DVD, e não no gravador — disse Molina, acrescentando: — Como posso saber que aquele áudio foi feito naquele gravador?
Molina atacou o principal trecho da gravação, quando Joesley fala de pagamentos para manter o ex-presidente Eduardo Cunha em silêncio e depois conclui que, com isso, está de bem com ele. Em seguida, Temer fala "tem que manter isso, viu", o que foi interpretado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como anuência do presidente aos pagamentos.
— Aquele trecho, do "tem que manter isso", tem quatro frases e cinco interrupções. Como vou falar de coerências lógicas? Quantas frases se perderam ali? — questionou Molina.
Molina voltou a atacar o trecho transcrito como "todo mês", quando Joesley fala de propinas pagas a Cunha. Com auxílio de softwares que transformam em imagens determinados sons, ele disse que, neste momento, a palavra que o empresário falou não termina com a letra S. A transcrição correta do que falou Joesley seria "tô no meio". A PF, porém, concluiu é "todo mês".
— Já mostrei espectrograficamente que não tem S ali — disse Molina.
Afirmou ainda que só acreditaria na análise dos peritos da PF se eles forem capazes de apontar edições em um arquivo manipulado pelo próprio Molina. E deixou no ar que eles conseguiriam fazer isso.

