Início Brasil Após escândalos, campanhas recrutam tesoureiros ‘outsiders’
Brasil

Após escândalos, campanhas recrutam tesoureiros ‘outsiders’

Envie
Envie

BRASÍLIA - Nestas eleições, após os escândalos revelados pela , a figura do perdeu importância. A mudança nas fez com que o papel seja, hoje, menos relacionado à arrecadação e mais a contabilidade e administração de contas. Alguns candidatos optaram por designar, em vez de figuras proeminentes de seus partidos, pessoas da sua confiança pessoal.

Na campanha de Ciro Gomes (PDT), quatro assessores consultados pelo GLOBO não souberam informar quem é o tesoureiro. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também não tem como dizer quem é o coordenador de finanças de Ciro, já que os nomes dos representantes só são informados ao tribunal na primeira prestação de contas, em setembro.

O candidato Henrique Meirelles (MDB) contratou dois outsiders para sua tesouraria, Fernando Tembra, administrador de empresas que cuida de seus investimentos pessoais, e Jaime Freitas, ex-corregedor do Banco Central. Nenhum dos dois teve envolvimento partidário antes, e Meirelles, conhecido pelo rigor com seu próprio dinheiro, evitou envolver o partido em sua tesouraria. O ex-ministro da Fazenda está tirando do bolso o dinheiro para sua campanha.

— Antes, não existia limite de gastos (nas campanhas), e a gente sabe a lambança que era — afirma Tembra. — Existe hoje uma preocupação com onde colocar o dinheiro. Antigamente o marqueteiro falava “quero cobrar tanto” e acabava, o candidato ia lá e pagava.

Jaime Freitas, que será registrado no TSE como tesoureiro, trabalhou com Meirelles na criação da corregedoria do Banco Central quando o candidato esteve à frente da instituição. Freitas nunca tinha trabalhado em uma campanha política, e aceitou pela boa relação com o candidato.

— Com qualquer outra pessoa, não trabalharia. Quantos tesoureiros dos últimos anos não foram presos? Mas com ele, vou de olhos fechados — diz Freitas.

Na campanha de João Amoêdo, pelo partido Novo, o tesoureiro, João Francisco de Almeida e Silva, também entende mais de dinheiro do que de política. Ex-operador do mercado financeiro, Silva pediu demissão da gestora em que trabalhava para se dedicar à eleição e está no partido desde sua fundação, em 2011.

Na equipe de Marina, na Rede, a tesoureira oficial é Luciana Pureza, mas quem cuida da captação de recursos é Bazileu Margarido, ex-presidente do Ibama. Em 2014, quando assumiu a cabeça de chapa do PSB após a morte de Eduardo Campos, Marina trouxe Bazileu para cuidar das finanças. Após interferência da direção do PSB, ele dividiu a função com Márcio França, hoje governador de São Paulo. Neste ano, a prioridade da Rede é o crowdfunding da candidata.

— Os grandes partidos contam com fundo eleitoral generoso e nem precisam fazer captação. Mas a Rede precisa de doações de pessoas físicas — explica Bazileu Magarido.

Jaime Freitas, um dos tesoureiros de Henrique Meirelles, resolveu trabalhar na campanha presidencial deste ano depois de ser incentivado pelo candidato a se aposentar do emprego, em que estava há mais de 40 anos. É uma relação bem diferente da que têm os tesoureiros escalados pelo PT e o PSDB com os respectivos partidos. As duas legendas recorreram a quadros partidários. Na chapa Lula/Haddad, será registrado como tesoureiro Ricardo Berzoini, que foi presidente do partido de 2005 a 2010 e ministro da Previdência e do Trabalho no governo Lula.

Em 2014, o tesoureiro da campanha da reeleição de Dilma Rousseff foi Edinho Silva, que foi ministro de Comunicação Social. Antes, o partido teve como tesoureiros quadros partidários como Delúbio Soares, Paulo Ferreira e João Vaccari Neto. Todos se envolveram em escândalos.

O tesoureiro da campanha de Geraldo Alckmin é Gustavo Kanffer, advogado do PSDB há mais de uma década. Embora ligado à estrutura partidária, seu perfil é mais profissional do que o dos tesoureiros tucanos na última eleição presidencial. Um tesoureiro “informal” da campanha do tucano Aécio Neves em 2014, Oswaldo Borges, foi citado por mais de um delator da Lava Jato como contato indicado pelo tucano para o recebimento de pagamentos ilegais.

Oficialmente, o posto de tesoureiro da campanha cabia a Frederico Pacheco, primo de Aécio que, três anos depois, ficou conhecido por carregar uma mala de dinheiro entregue por um executivo da J&F, Ricardo Saud, como parte do acordo de colaboração premiada de Joesley e Wesley Batista com a Polícia Federal.

Na campanha de Jair Bolsonaro (PSL), a função foi destinada ao dirigente da mais estrita confiança do presidenciável. Gustavo Bebbiano, que já acumula os cargos de presidente e advogado da legenda, também cuidará das finanças da campanha. Presença frequente ao lado do candidato, inclusive em viagens, Bebbiano se aproximou de Bolsonaro quando o capitão da reserva do Exército passou a flertar com a candidatura, há três anos. A confiança cresceu ao longo do tempo e Bebianno passou a ser escutado por Bolsonaro para tudo. Quase sempre, sua posição sobre os rumos da campanha, desde a escolha do partido até a decisões sobre agenda, prevalece.

Bolsonaro estima ser possível fazer sua campanha com R$ 1 milhão. Sua estrutura é enxuta, e a aposta é integral nas redes sociais, sem altos gastos com produção de programas de TV, visto que terá apenas oito segundos em cada bloco de propaganda. As atividades de rua são comandadas por estruturas regionais do partido, com gastos modestos de locação de espaços e equipamentos

Siga-nos no

Google News