SÃO PAULO O procurador Dalton Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato no Paraná, aproveitou o Domingo de Páscoa para incentivar a prática de um exercício espiritual muito popular durante a quaresma: o jejum. Amanhã, segundo ele, é o dia D da luta contra a corrupção na operação Lava Jato, referindo-se ao julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no STF. “Uma derrota significará que a maior parte dos corruptos de diferentes partidos, por todo país, jamais serão responsabilizados, na Lava Jato e além. O cenário não é bom. Estarei em jejum, oração e torcendo pelo país”, escreveu Dallagnol no Twitter.
No meio evangélico, a prática do jejum é semelhante às “promessas” aos santos católicos: um exercício espiritual que aproxima o fiel de Deus e ainda ajuda a alcançar uma graça ou outra. Dallagnol, fiel da Igreja Batista, não é o primeiro protestante na história política brasileira que, preocupado com as instituições, propõe um dia de jejum e oração. Em 1963, o pastor batista Enéas Tognini (1914-2015) convocou os evangélicos para o “Dia Nacional de Jejum e Oração”, no dia 15 de novembro, feriado da Proclamação da República.
Os fiéis deveriam rogar aos céus que livrassem o país da corrupção e da ameaça comunista que alguns enxergavam no governo do presidente João Goulart. O golpe militar de 31 de março de 1964 foi interpretado por Tognini como a resposta de Deus àquele feriado de jejum e oração.
– As convocações para movimentos de oração e para a realização de jejuns comunitários não são novidade na história religiosa brasileira – afirma o historiador Leandro Seawright, autor de Ritos da oralidade: a tradição messiânica de protestantes no regime militar brasileiro e professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). – Duas iniciativas correlatas à iniciativa de Dallagnol foram realizadas por batistas antes de rupturas políticas. A primeira aconteceu às vésperas do golpe do Estado Novo. E a segunda poucos meses antes do golpe militar de 1964. Quem conclamou os evangélicos para o chamado movimento de “jejum, oração e humilhação” foi o pastor batista Enéas Tognini.
Seawright entrevistou Tognini para suas pesquisas sobre a colaboração – e a oposição – de lideranças protestantes com a ditatura militar. O pastor afirmou ao historiador que convocou seu rebanho para um dia de oração e jejum porque “o diabo estava reinando no Brasil”.
Em 2016, o deputado estadual paulista André Soares (DEM) propôs a alteração do nome do metrô Vila Mariana para homenagear Tognini, que pastoreou uma igreja nas proximidades, a Igreja Batista do Povo. Soares é filho do pastor neopentecostal R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) vetou a mudança do nome da estação, mas, nos primeiros dias de 2017, adicionou “Pastor Enéas Tognini” ao nome da Faculdade Tecnológica do Ipiranga.
Segundo Seawright, a convocação de Dallagnol ao jejum e à oração segue a mesma lógica que orientou lideranças protestantes em outros tempos de turbulência política.
– A lógica é simples: estabelecido o inimigo interno e eleitos os “heróis salvadores da pátria”, convoca-se um dia de jejum e oração em nome da suposta vontade divina em favor do país. O protagonismo passou do Exército Brasileiro para o Judiciário, mas as estratégias permanecem as mesmas.
O juiz Marcelo Bretas, que citou um versículo bíblico ao autorizar Operação Calicute, responsável por prender o ex-governador Sérgio Cabral, respondeu a convocação de Dallagnol no Twitter. “Caro irmão em Cristo, como cidadão brasileiro e temente a Deus, acompanhá-lo-ei em oração, em favor do nosso País e do nosso Povo”, escreveu. Bretas também é evangélico, fiel da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, no Rio.

