Não, todos sabiam que estavam cometendo crimes. Caso contrário, não teriam motivos para esconder a corrupção. É claro que foi exposta a parte da cultura da corrupção na Petrobras. Eu gosto do termo ‘propinocracia’ usado pelos procuradores. Mas quem pratica corrupção racionaliza, sim, esses atos de antemão. Não só por dinheiro, mas por poder e até por sexo. Às vezes pelos três.
O ponto de partida é perguntar a si mesmo: se você pudesse garantir vastas somas de dinheiro para você e para sua família e manter a maioria desses valores e ainda evitar a prisão, você agiria de forma corrupta? Há muitos benefícios para atuar de forma corrupta: o lucro garantido e a impunidade. Antes da Lava-Jato, se pegos, as chances de denúncia eram mínimas. E mesmo em caso de denúncia, poucos eram condenados. E quando condenados, as penas geralmente eram apenas financeiras.
A corrupção, mesmo que criminosa, é atraente se a empresa é multada e os indivíduos corruptos puderem continuar agindo de forma corrupta.
Como evitar, então, a prática da corrupção?
Eu já fui a muitas conferências, particularmente sobre corrupção e fraude, e a resposta é quase sempre a mesma: aqueles envolvidos só começam a se preocupar com
No Brasil se fala que a corrupção de hoje é um retrato de uma população que pratica atos de corrupção no dia a dia. É possível fazer essa ligação?
Não, o peixe apodrece pela cabeça. Níveis altos de corrupção geralmente são definidos por aqueles no topo, por donos de empresas e, é claro, pelos políticos. Se a corrupção é encorajada ou tolerada por eles, ela vai se espalhar e infectar uma empresa ou até um país.
Qualquer um pode acabar sendo corrupto?
Acho que todos temos a capacidade de sermos corruptos, mas isso depende muito do contexto. Em algumas partes do mundo, e sem dúvida no Brasil, a corrupção é necessária para algumas pessoas sobreviverem. É por isso que alguns atos de corrupção são considerados aceitáveis, mesmo que ilegais, como sonegar impostos, tirar cópias de livros inteiros ou baixar um filme ilegalmente. Isso não é uma justificação do crime, mas o reconhecimento de que alguns têm poucas escolhas na vida.
Não acredito que existam traços de personalidade de quem pratica corrupção. O que temos são alguns fatores que podem, repito, indicar tendência: homens de meia idade, em cargos de gerência, trabalhando em um setor conhecido pela corrupção, que fazem declarações defendendo atos corruptos, e que foram rejeitados para promoções.
Quanto mais vemos escândalos internacionais, como o da Petrobras, maior é a sensação e a visão do “eles podem, eu também posso”.
O que existe é a falta de remorso. Isso é padrão com criminosos de colarinho branco, do corrupto, para tentar apresentar desculpas para atos desse tipo. Geralmente justificam falando que era normal, que todos faziam ou que era a única forma de fazer negócios.
Nesses casos, o compliance geralmente é uma cortina de fumaça. É mais um exemplo de “olha, estamos fazendo alguma coisa” ao invés de mudar práticas corruptas. É fácil desviar do compliance. Até porque, normalmente, a corrupção vem de cima.
Não só no Brasil, processos penais bem-sucedidos são raros. Então, o ideal é tentar recuperar o máximo de dinheiro possível. Mas isso é o bastante para prevenir corrupção, se os envolvidos ficam livres? Eu entendo o objetivo (da busca pelo dinheiro roubado), mas isso é justiça? (*)

