FORTALEZA - Dias depois de ser preso por roubo em Fortaleza, Douglas Lemos de Lima, 13 anos, conseguiu falar com o pai pelo telefone. Aos prantos, ainda num centro de triagem, pedia para que não fosse abandonado. Com receio sobre o que aconteceria com seu futuro, Douglas acabou levado um abrigo, de onde foi tirado para morrer. Franzino, é dele a foto que circulou nas redes sociais, feita pouco antes de ser executado por criminosos, na semana passada. O menino e outros três colegas foram vítimas da disputa de poder de facções que aumenta assustadoramente os índices de violência na capital cearense.
O número de mortes violentas subiu 96% de janeiro a outubro deste ano em relação ao mesmo período de 2016. Já são 1.616 assassinatos, grande parte deles em execuções promovidas por organizações criminosas rivais. Órfão de mãe desde os 5 anos e distante do pai, alcoólatra, o menino buscava, na aproximação com integrantes de uma dessas facções, a proteção que não tinha em casa. Para isso, chegou a tatuar nos dedos da mão direita os números 745, correspondentes à ordem no alfabeto da sigla GDE, abreviação de Guardiões do Estado, que atua nas ruas e nos presídios do Ceará.
Foi justamente por causa da tatuagem que Douglas teve a mais violenta morte entre os quatro adolescentes executados depois de serem retirados do Centro de Ressocialização Mártir Francisca, na madrugada da última segunda-feira.
De acordo com autoridades que acompanham o caso, a chacina dos adolescentes foi praticada por integrantes do Comando Vermelho, facção criminosa que domina o bairro Sapiranga, onde está localizado o centro. Por toda a cidade, são inúmeros os relatos de restrição à circulação de pessoas em comunidades, com proibição até de jovens frequentarem a escola.
Em audiência na Vara de Infância, adolescentes internados no local já vinham desde agosto relatando que o CV ameaçava matar jovens que estivessem no Mártir Francisca e fossem moradores de bairros dominados pela facção rival GDE. A direção do centro foi informada pelo Judiciário sobre os relatos do plano de ataque, mas minimizou os riscos, apesar de ter reconhecido que o bairro é dominado pelo CV, e que os jovens tinham receio de circular a pé pela região quando liberados nos fins de semana para ficar em casa. Eles estariam recorrendo a aplicativos de transporte para chegar até o ponto de ônibus.
— É um atentado não só contra jovens, mas contra o estado, que está em xeque — diz Manoel Clístenes, juiz da 5ª Vara da Infância em Fortaleza.
Além de ter recebido inúmeros disparos de arma de fogo, Douglas teve a mão direta, a que tinha a tatuagem da facção GDE, arrancada. .Douglas tinha sido pego pela polícia em 27 de setembro. De acordo a sentença, ele e outros comparsas armados e que conseguiram fugir, usaram um carro para assaltar pessoas num ponto de ônibus em Fortaleza. Ele confessou a participação, mas negou ter usado a arma e disse que apenas recolheu os pertences das vítimas.
Como era primário, o juiz determinou que fosse para o regime semiaberto, no qual os jovens são autorizados a ir para casa no fim de semana e podem estudar e fazer cursos fora da unidade. Passou um tempo numa unidade de triagem e chegou ao Mártir Francisca no último dia 10, três dias antes do ataque ao local.
No mesmo dia, chegaram outros dois jovens que também seriam executados: Lucas da Silva Pascoal, de 15 anos; e George Alves de Oliveira, de 16. Os dois últimos foram detidos depois de participarem de um assalto em Canoa Quebrada, no litoral cearense.
Eles viviam na vizinha Russas, no interior do estado. Foi por causa da cidade que os dois entraram no grupo de executados. Também foi executado Edgleison Oliveira de Sousa, de 16 anos, que vivia no Conjunto Palmeiras, outra área de Fortaleza associada à facção cearense.
Por volta das 3h30 de segunda-feira, um grupo de 15 homens usou duas escadas para pular o muro dos fundos do centro. Fortemente armados e com o rosto cobertos por tocas e camisetas, os criminosos invadiram as três casas onde os adolescentes passam a noite. Como é a unidade de regime semiaberto, não tem um grande aparato de segurança e os muros são baixos. O centro, considerado referência, tem boas instalações e os dormitórios dos menores lembram casas de praia.
— Eles acordavam os meninos com arma na cara e saiam perguntando onde eles moravam — relembra um funcionário do local.
As execuções aconteceram numa rua vizinha ao Centro, já dentro de uma favela dominada pelo CV. Diante do estado dos corpos, a polícia disse que só a perícia vai dizer quantos tiros cada um levou. Até sexta-feira, três pessoas haviam sido presas, entre eles, um menor.
Além da quantidade de mortes, a guerra entre facções no Ceará chama a atenção pela crueldade das execuções — e pela forma como são divulgadas. Na tentativa de espalhar o medo, os grupos se valem de uma tática difundida pelos terroristas do Estado Islâmico: postar cenas de violência nas redes sociais. Há na internet inúmeros vídeos de corpos decapitados, queimados e retalhados.
Na chacina do Mártir Francisca, os criminosos divulgaram fotos dos corpos dos jovens e um vídeo dos momentos anteriores à execução de Douglas Lemos de Lima, de 13 anos. Na gravação, o atirador segura o adolescente pelo cabelo e, antes de fazer o primeiro disparo, o chama de “verme” e “zé ruela”. Em seguida, pergunta se ele vivia na “Barra”, que seria o bairro Barra do Ceará, dominado pelos Guardiões do Estado (GDE). O garoto ainda é obrigado a mostrar a tatuagem que fez nos dedos com os números da facção GDE, antes de ser atingido por um chute que o joga no chão.
— Essa violência aqui do Nordeste é muito próxima do tipo de violência que a gente vê na América Central e no México, com disputa territorial de gangues, com um modus operandi muito violento — avalia Thiago de Holanda, coordenador da equipe técnica do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, que estuda as mortes ocorridas no estado.
De acordo com Holanda, os criminosos querem, com as imagens, expor o seu poder:
— Os crimes são muito brutais. Isso amplia muito o sofrimento das famílias. Imagina como é para uma mãe receber o corpo do seu filho carbonizado?
O secretário de Segurança Pública do Ceará, André Costa, reconhece que as mortes no estado apresentam semelhanças com as chacinas do México e de El Salvador, também assolados por guerras de gangues.
— São os três países (Brasil, El Salvador e México) que têm esse tipo de execução com requintes de crueldade e barbárie —afirma o secretário.
Apesar da guerra de facções, o Ceará não tem registrado muitas mortes dentro das penitenciárias. No começo do ano, o governo estadual decidiu lotear os presídios entre as facções para evitar massacres como os registrados, na época, em Roraima, Amazonas e Rio Grande do Norte.
O loteamento do sistema penitenciário cearense procurou separar integrantes dos grupos Comando Vermelho, GDE e PCC

