RIO - Em meio a um aumento de incertezas no mundo e ao maior protecionismo dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, o brasileiro Roberto Azevêdo foi confirmado formalmente nesta terça-feira para um segundo mandato de quatro anos à frente da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em entrevista ao GLOBO por e-mail, o embaixador se mostrou cauteloso para avaliar a política comercial dos EUA mas afirmou que a OMC está aberta ao diálogo com o país, que chamou de importante membro da organização.
O brasileiro Azevêdo foi candidato único à reeleição de diretor-geral e teve pelos 164 países-membros.
A preocupação com o avanço do protecionismo e com as ações do governo Trump na área de comércio internacional marcou a reunião. Mais de 20 países fizeram perguntas durante a sabatina do embaixador, na última segunda-feira. A China foi uma das nações que citaram o temor com medidas protecionistas, enquanto os Estados Unidos perguntaram sobre comércio desleal.
Em seu discurso aos países-membros, ele afirmou que a OMC é mais forte hoje que há quatro anos, mas foi claro em reconhecer o que chamou de “tempos desafiadores”, citando o baixo crescimento econômico, a ameaça do protecionismo e a persistência de questões como pobreza e desigualdade.
Quando fui candidato em 2012, havia nove nomes no páreo. Desta vez, fui candidato único. Quero acreditar que isso seja um reconhecimento das conquistas da OMC nos últimos três anos e meio. No período, obtivemos resultados expressivos, entre eles o primeiro acordo global da OMC — o Acordo de Facilitação do Comércio —, e a maior reforma do comércio agrícola em décadas. Para o segundo mandato, há muitos desafios, e, nesse contexto, a forma rápida e descomplicada com que ocorreu esta eleição por consenso certamente ajuda. Os membros da OMC precisam estar unidos em defesa da organização, do comércio e da cooperação internacional.
Prefiro não especular sobre qual será a política comercial da nova administração nos Estados Unidos. A própria Casa Branca disse que se deve aguardar a equipe ser formada, para que possam falar sobre política comercial. De forma geral, é importante lembrar que a OMC foi criada justamente para que os países possam discutir suas diferenças de maneira transparente e previsível, de acordo com regras acordadas por todos. A Organização possui diversas ferramentas para que os países lidem com suas preocupações comerciais. Todos os países têm interesse em usar o comércio para promover emprego e crescimento, ninguém é a favor do comércio desleal — e a OMC oferece os instrumentos para que os países lidem com essas preocupações. A OMC está plenamente aberta para o diálogo com os EUA, que são um importante membro da Organização.
Seguimos monitorando de perto a situação do comércio mundial. No pós-crise de 2008, o crescimento do comércio, de forma geral, tem sido baixo. Por enquanto, o caráter modesto da expansão comercial não tem o protecionismo como causa. A economia mundial é que está crescendo pouco. No entanto, se o discurso anticomércio começar a se traduzir em barreiras, é provável que isso se reflita nos números gerais do comércio. Como sabemos, barreiras comerciais se espalham rapidamente. A ameaça de efeito dominó é real. É importante evitar que isso ocorra porque as consequências são graves, e porque reverter barreiras protecionistas tende a ser muito difícil.

