BRASÍLIA — Após o presidente do , Ilan Goldfajn, sinalizar que o processo de queda de pode não ter chegado ao fim, o mercado financeiro passou a apostar que o Comitê de Política Monetária (Copom) cortará a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual neste mês. Assim, os juros básicos chegariam a 6,5% ao ano: o novo menor nível da História. A avaliação dos analistas é que há espaço para mais uma baixa por causa do desempenho ruim da economia no fim do ano passado, porque a inflação tem surpreendido positivamente e o crédito ainda não tem alavancado a atividade como esperado. No entanto, há um empecilho no meio do caminho: os Estados Unidos podem subir os juros exatamente no mesmo dia da reunião da cúpula do BC.
Normalmente, o anúncio do Federal Reserve (o Banco Central americano) é feito às 15 horas. Os diretores brasileiros devem estar reunidos neste momento. Terão até às 18 horas para decidir se vale a pena cortar novamente a Selic. Em reunião com os economistas na semana passada, alguns dos integrantes do Copom ouviram que seria melhor deixar os juros básicos como estão por mais tempo do que fazer uma baixa pequena e voltar logo a subir por causa das dúvidas no cenário internacional.
No entanto, a incógnita que ainda pairava no ar acabou depois de uma entrevista do presidente Ilan à CBN na segunda-feira. Ele não se comprometeu com uma nova, mas foi claro de que ela pode acontecer.
— A gente se dá a liberdade para esperar a próxima reunião. O que eu posso dizer é que as últimas taxas de inflação que vieram, de fato, vieram mais baixas do que nós estávamos esperando. Surpreendeu todo mundo inclusive o Banco Central — disse o presidente à rádio.
Como é considerado moderado e sempre evasivo em relação às próximas decisões do Copom, a fala foi suficiente para praticamente todo o mercado financeiro entender que o próximo passo será um corte de 0,25 ponto percentual nos juros. Os negócios começaram a ser fechados com essa premissa e os economistas passaram a revisar os cenários.
— O Ilan tem um perfil mais conservador e não costuma ser tao direto. Sempre deixa um elemento mais dúbio. Foram poucas as entrevistas dele que mexeram com o mercado — falou Patrícia Pereira, gestora de Renda Fixa da Mongeral Aegon Investimentos.
Patrícia tinha dúvidas se haveria um novo corte. Disse que pelo comunicado divulgado após a reunião de fevereiro do Copom, esperava que o BC começasse um período de manutenção do juros em março. Passou a perceber sinais diferentes na ata da reunião, publicada uma semana depois quando novos dados de inflação baixa já tinham saído. Viu aumentar as chances de uma nova queda da Selic com novas divulgações de preços favoráveis. Selou a aposta após a entrevista do presidente do BC.
— Já virou consenso em torno de uma nova queda da Selic porque a inflação tem surpreendido muito para baixo. O PIB (Produto Interno Bruto) também está muito fraco sem falar no canal do crédito, que está muito obstruído — lembrou o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito.
Perfeito chama atenção para a coincidência de o Copom tomar uma decisão tão importante como essa no mesmo dia em que o Fed pode aumentar os juros. Uma alta da taxa americana interfere no fluxo de dinheiro em todo mundo. Como os papéis do Tesouro americano são considerados um investimento seguro, há uma migração para essa aplicação. Quando os recursos saem do país, há impacto no câmbio que pode afetar ou não a inflação.
— Seria curioso ver o Brasil cortar juros e os Estados Unidos subirem — observou o analista.

