Quatro brasileiros jogam nesta terça-feira, às 13h (de Brasília), o futuro na Liga dos Campeões. Na verdade, o mesmo torneio, mas uma Liga dos Campeões diferente da que o mundo conhece, sem glamour e nomes globalmente reconhecidos. Pelo Hibernians, de Malta, eles tentam defender, na Estônia, uma vantagem de 2 a 0 construída, em casa, sobre o FCI Tallinn. O jogo fecha a primeira de quatro fases eliminatórias que antecedem a fase de grupos. A etapa atual reúne times de países com pior ranking na Uefa.
Outra realidade, outros sonhos. Não que chegar à fase de grupos, embora um objetivo difícil, esteja fora de cogitação. No entanto, os planos de carreira e de vida são muito diferentes dos que movem as estrelas dos principais clubes do torneio.
Há seis anos, o zagueiro Rodolfo Soares chegou a Malta para mais um capítulo de sua vida de cigano da bola. Formado no Fluminense, passara por Dinamarca, Qatar e até pelo Líbano. Ao ouvir sobre a oportunidade na ilha, achou "absurdo", como ele mesmo descreve. Não foi propriamente o futebol local que o conquistou, mas a vida com a janela de casa aberta, o carro destrancado e a filha brincando no parque sem despertar preocupação. Hoje, combina a vida no futebol com a gestão de duas agências de turismo. E não pretende voltar ao Brasil.
- Além da beleza do lugar, encontrei uma oportunidade de cuidar da minha família com segurança, hospitais e escolas que funcionam e gente que te trata bem. Parece um mundo diferente - conta Rodolfo. - Minha ideia é morar aqui. Estou estudando inglês, comprei uma franquia na áre de turismo e hoje tenho duas agências. A gente tomou conta do mercado brasileiro. Quero trabalhar com intercâmbio, mas também estou estudando para ser treinador, trabalhar com crianças...
A qualidade de vida em Malta se sobrepõe a realizações esportivas e financeiras. Rodolfo conta que o nível do futebol no país melhorou com a abertura para até sete estrangeiros por equipe. Antes, apenas os que chegavam de fora eram considerados profissionais. Mas, ainda hoje, os jogadores locais cuidam, paralelamente, de outros negócios, tais como lojas e investimentos imobiliários. Em geral, os treinos são noturnos, em especial no verão.
Viver e jogar em Malta é estar livre de compromissos que costumam aborrecer jogadores, como a concentração. O país tem apenas três estádios, dois com grama natural, um deles do próprio Hibernians. Não há viagens na competição local e os públicos são pequenos, chegando a três mil pessoas nos jogos finais. Proporcionalmente a uma ilha de 400 mil habitantes, não chega a ser um fracasso.
- Eu até sinto falta da concentração. Aqui não tem isso. Então, quando tem uma viagem, é até bom porque rola uma resenha bacana entre os jogadores - diz o meia Jackson Lima, de 34 anos, paranaense de Guarapuava e ex-jogador de Catanduvense, Bandeirante e Oeste, todos do interior paulista.
Não há pressão de torcida, apenas eventuais conversas, sem qualquer ameaça de agressão. Só não é possível sonhar com grandes glórias e com a fortuna normalmente associada à Liga dos Campeões.
- Quando você chega, é impossível fazer dinheiro. Aos poucos, você estrutura a sua vida, conquista algumas coisas e pode viver melhor do que muitos jogadores no Brasil. E tem a segurança de receber em dia - diz Rodolfo.
O choque cultural, ao menos no início, é natural.
- A maioria das pessoas fala inglês, além do maltês e de um pouco de italiano. Eu não falava nada. Tive que me virar - reflete Jackson, também seduzido pela beleza das praias, a segurança e a tranquilidade da ilha. Ele lembra com bom humor de sua confusão envolvendo um sobrenome comum em Malta. - Temos um menino no time que se chama Bezzina, o presidente do clube também é Bezzina, até o primeiro-ministro de Malta é Bezzina. No começo eu achava que todo mundo era parente. Até perguntei ao menino do nosso time: "Você é o que do presidente?". E ele: "Sou nada, não".
A história recente do Hibernias tem alguns feitos consideráveis. Rodolfo, que ganhou duas vezes a liga de Malta, duas vezes a copa e a supercopa do país, lembra que, há dois anos, o time bateu o Maccabi Tel Aviv numa fase preliminar de Liga dos Campeões. O time israelense acabou devolvendo o placar no jogo de volta e chegou à cobiçada fase de grupos do torneio. Mas o resultado mostrou que a classificação hoje está longe de ser improvável. Mais adiante, o grau de dificuldade aumenta.
- O futebol daqui não chega a ter um nível como na Espanha, por exemplo. Mas é legal, nosso time é competitivo. Jogamos com mais bola no chão, retenção da bola. E menos chutão.

