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Mortes ligadas a futebol vêm acontecendo com mais crueldade, diz sociólogo

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O número de mortes nos estádios brasileiros já chegou a nove, três em uma única semana. Esse é o balanço de apenas sete meses do ano, de janeiro a julho. Só no Campeonato Brasileiro, que está na 13.ª rodada de 38, já aconteceram 15 incidentes graves, como brigas generalizadas dentro e fora dos estádios, e quatro mortes.

O levantamento é do professor e sociólogo Maurício Murad, da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), com base em dados policiais. A nona morte, de Leandro de Paula, de 38 anos, torcedor do Palmeiras, ocorreu nesta quinta-feira. Ele foi esfaqueado por corintianos, após discussão nos arredores do estádio palmeirense. O Conrinthians venceu o Palmeiras, quarta-feira, por 2 a 0.

- Na última década, cerca de 90% dos registros aconteciam longe dos estádios e fora do horário das partidas. Em 2017, ainda que de forma prematura, posso observar que as brigas estão acontecendo dentro e no entorno dos estádios, nos horários dos jogos. As autoridades e organizadores dos campeonatos precisam se atentar a isso - fala Murad.

Segundo o estudo, a média de mortes está na mesma faixa dos anos anteriores, com leve baixa. No ano passado foram 13 mortes e em 2015, 16. Mas, esse número já chegou a 30 em 2013.

- Com grandes eventos, Copa do Mundo e Olimpíada, os óbitos começaram a cair. Em 2014, foram 20. No entanto, tenho visto que o grau de crueldade disparou. É espeto, foice, enxada e até privada foi usada como arma (Santa Cruz x Paraná, no Recife) - opina Murad, que lembra da primeira morte no ano, durante o Campeonato Carioca, quando Diego da Silva dos Santos, de 28 anos e torcedor do Botafogo, foi perfurado com um espero de churrasco, em briga com torcedores do Flamengo, nos arredores do Estádio Nilton Santos.

Para Luiz Roberto Leven Siano, advogado especialista em direito desportivo, a escalada da violência tem ligação direta com o não cumprimento do Estatuto do Torcedor que prevê, inclusive a punição para os organizadores do evento.

- O foco está no mau torcedor, mas deveria estar em quem promove o espetáculo. Claro que o brigão tem suas responsabilidades. Mas o raciocínio é que o torcedor é um consumidor e se os donos do espetáculo, entenda CBF, Federações e clubes, fossem punidos por não cumprir a lei, muita coisa mudaria. É previsto em lei que o presidente da CBF, das Federações e dos clubes, por exemplo, podem ser destituídos de seus cargos se violarem as regras, como a de não garantir a segurança do consumidor - aponta Leven Siano. -Se fossem punidos, não teria espaço para brigas. O Ministério Público tem de fazer valer a lei que já existe.

Leven Siano entende ainda, que a lentidão do judiciário favorece o brigão e também essas entidades. Até hoje, o advogado aguarda desfecho das ações que impetrou em 2013, após guerra violenta entre torcedores do Vasco e Atlético-PR.

- Meus clientes, torcedores que foram ao jogo, processam inclusive a CBF, o Atlético-PR e o juiz, que permitiu a continuidade do jogo mesmo sem policiamento adequado. Até agora não tivemos um desfecho - conclui o especialista que também aponta a dificuldade de identificação dos maus torcedores, como facilitador para a briga e as mortes.

Já o juiz Marcelo Rubioli, que foi por anos titular do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos defende que as pontas do processos são o problema: a investigação como prevenção e as leis fracas.

- Deveria ter uma delegacia especializada. Assim como promotores do Ministério Público destacados para avaliar especificamente esse tipo de crime. Porque hoje, só se investiga o depois. Mas essas organizadas brigam de matar, muitas vezes se sustentam de outras atividades ilegais também, como tráfico de drogas e desmonte de carro. E isso está ligado. - explica Rubioli.

O juiz também defende que o Estatuto do Torcedor seja reformulado para que as penas para brigões sejam maiores e que o afastamento também.

- O estatuto tem que ser discutido. As penas são brandas para rixa de torcida. Como os clubes precisam ser responsabilizados. É um produto deles. Não dá pra dizer que não dá ingressos, e dar. Não adiantar ter o recurso da biometria e brigar para não colocar - conclui Rubioli.

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