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No futebol espanhol, ecos do referendo catalão

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O futebol não tinha como ficar imune ao domingo de referendo na Catalunha, marcado por violenta repressão policial, 844 feridos e ampla vitória do “Sim”, com quase 90% dos votos. Nomes emblemáticos como Piqué e Guardiola, além do próprio Barcelona, que enfrentou o Las Palmas com portões fechados por razões de segurança, acabaram ocupando papel de destaque no debate.

A semana que começa promete novos ecos da política no futebol. Na sexta-feira, a seleção espanhola enfrenta a Albania, em Alicante, no jogo que pode definir a classificação matemática para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Dar unidade à equipe, mantê-la distante da discussão separatista, não será tarefa fácil.

Em especial por Piqué. Vaiado pelo público espanhol sempre que a seleção se exibiu fora da Catalunha nos últimos jogos, o zagueiro do Barcelona, conhecido pelo posicionamento firme a favor da independência, foi o personagem mais procurado após a vitória do Barcelona sobre o Las Palmas no Camp Nou vazio. E foi às lágrimas ao falar do esforço dos catalães para votar.

— Quando se vota, pode-se votar sim, não ou em branco. Mas se vota. Aqui, durante muitos anos de franquismo, as pessoas não podiam votar. Sou e me sinto catalão. Mais do que nunca, estou orgulhoso. Não houve nenhum ato de agressão e foi preciso que viessem a Guarda Civil e a Polícia Nacional para atuarem da forma que atuaram — disse Piqué.

Dirigentes se demitem

Durante a semana, o defensor já usara suas redes sociais para defender a realização da votação. O que ampliou o debate na Espanha sobre a legitimidade de que ele continuasse na seleção. Símbolo do Real Madrid, Sérgio Ramos, parceiro de Piqué na zaga espanhola, ampliou a polêmica.

— A publicação de Piqué não é a melhor para a seleção, mas cada um é livre para dizer o que pensa — afirmou o jogador do Real. — Não é o melhor caso ele não queira ser vaiado.

Sérgio Ramos, no entanto, não questionou a participação de Piqué na seleção.

— Se alguém achar que sou um problema para a seleção, posso me retirar antes de 2018 — disse Piqué. — Ir à seleção não é questão de patriotismo. Muitos jogadores se nacionalizaram. É questão de ir e render o máximo.

O Barcelona também se viu no centro de uma polêmica. Cultivar por décadas o lema de “Mais que um clube”, definição que incluiria a defesa de valores culturais e políticos da Catalunha, ajudou a instalar uma discussão institucional. O clube tentou adiar a partida com o Las Palmas, embora a polícia catalã garantisse a segurança. A Liga Espanhola não permitiu o adiamento e ameaçou punir o clube. O presidente Josep Maria Bartomeu decidiu pelo jogo com portões fechados.

— Para ficar claro que se jogou em condições excepcionais — afirmou.

Dois dirigentes, um deles um vice-presidente, se demitiram. Parta de diretoria entendia que o clube não deveria jogar como protesto pela repressão policial e assumir as penalidades, mas manter sua posição como símbolo catalão. E achavam menos cabível ainda atuar sem os torcedores numa data tão simbólica, embora houvesse ameaça de uma invasão de campo como protesto. O jogo aconteceu e o Barcelona venceu: 3 a 0. O jornal “Sport” de hoje estampa em sua capa a manchete “Vergonha” sobre uma foto do Camp Nou deserto. Mais abaixo, como contraponto, há uma foto de Piqué e a palavra “Dignidade”.

Ex-técnico do Barcelona e outro defensor da independência catalã, Pep Guardiola, treinador do Manchester City, disse que não teria entrado em campo para o jogo contra o Las Palmas. E criticou o presidente espanhol Mariano Rajoy, a quem acusou de se esconder.

— Há mais de 700 feridos. Pessoas que iam votar, não assaltar um banco.

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