MOSCOU - O encontro de 30 dos 32 técnicos que dirigirão seleções no Mundial da Rússia — a Austrália está sem treinador, e o uruguaio Oscar Tabárez não viajará a Moscou — é também uma exibição de contrastes. Do poderio técnico às ambições. De um lado, por exemplo, Tite e o argentino Jorge Sampaoli são convidados a fazer projeções que vão além da primeira fase; de outro, estreantes que enxergam no bilhete para a capital russa uma conquista. Amanhã acontece o sorteio dos grupos da Copa.
— Na hora do sorteio, sei que todo mundo vai querer jogar contra mim — disse o colombiano Hernán Darío Gómez, técnico do Panamá, estreante em Copas ao lado da Islândia. — Ainda nos falta algo para competir com os gigantes. Será um orgulho enfrentá-los.
Tite evita de todas as formas revelar preferências. Pondera até se seria uma má notícia ter uma seleção de grande porte como rival logo na primeira fase. A Espanha, por exemplo, tem 20% de possibilidades de cair no grupo do Brasil. Ontem, durante um ensaio no palco oficial do evento, o Brasil ficou num grupo com Inglaterra, Dinamarca e Marrocos.
— Já fiz umas 13 simulações e desisti — brincou Tite. — É difícil definir o que é bom e ruim no sorteio. Por vezes, um grupo difícil no início pode fortalecer o seu time mais adiante.
Enquanto falava, o treinador não ouvia quase todos os demais técnicos presentes colocarem o Brasil no grupo de favoritos destacados. Neste ponto, o encontro do mundo do futebol na Rússia é também revelador da força da seleção como instituição futebolística. Mergulhada na crise entre 2014 e 2016, bastou pouco mais de uma dezena de jogos com Tite para que o time transformasse o olhar do planeta.
Jorge Sampaoli é um exemplo. O treinador da Argentina incluiu o maior rival no seu trio de favoritos.
— A Espanha tem um jogo associado (controle da partida pela troca de passes) muito interessante, com protagonismo, iniciativa. A França tem individualidades que podem resolver de diferentes formas. E o Brasil é forte em tudo — disse Sampaoli. — Com Tite, alcançou um funcionamento muito bom e tem um Neymar espetacular.
Em recente debate numa universidade em seu país, Sampaoli excluiu a Alemanha de sua lista por “não gostar da forma como jogam”.
— Eles não têm mais símbolos que foram determinantes em outros Mundiais. Hoje, é puro pragmatismo. Mas manteve um estilo durante muito tempo, é uma fortaleza mental, o que a faz muito forte. Apenas gosto de outro estilo — disse Sampaoli, que aprecia a posse de bola, um traço alemão, mas gosta de um jogo mais “vertical”, mais orientado em direção ao gol e com jogadores capazes de desequilíbrio no ataque. A Alemanha tem por característica trocas de passe mais longas e pacientes, embora tenha exibido um jogo de contragolpes rápidos na Copa das Confederações.
Lineker participará da festa
No sorteio, os times serão divididos, de acordo com o ranking, em quatro potes de oito. Cada grupo terá um time de cada pote. À exceção da Europa, não pode haver duas seleções do mesmo continente num grupo.
Ontem, a apresentação do método do sorteio teve uma saia justa anunciada. A apresentadora de TV russa Maria Komandnaya teve que responder sobre o fato de o ex-jogador inglês Gary Lineker, com quem dividirá o comando da cerimônia, ser um habitual e ácido crítico da Fifa. Lineker chegou a dizer que “a corrupção na entidade causava náuseas". E qualificou a Fifa de “entidade revoltante”.
— Eu ouvi falar disso, mas Lineker disse que está feliz — disse a russa.
Criticado por ter aceito o convite, Lineker usou o Twitter para argumentar: “Continuarei crítico da Fifa sempre que achar necessário. Vou apresentar o sorteio de uma Copa do Mundo, torneio que joguei duas vezes, assisti por toda a minha vida e ganhei uma Chuteira de Ouro (como artilheiro, em 1986)”.

