MOSCOU Era para ser uma terça-feira solene para a Rússia, que celebrava a sua independência da União Soviética, em 1990, com direito a discurso do presidente, Vladimir Putin, em rede nacional. A alguns metros da Praça Vermelha e do Kremlin, que concentravam as festas, uma dúzia de torcedores argentinos interrompe a bagunça alheia pedindo que os russos se calem. “Um minuto de silêncio!”, começam os hermanos, antes de zombar — “para o Chile, que está morto!” —, fazendo troça de seus rivais históricos, de fora da Copa do Mundo de 2018.
Graças à Copa, a Rússia virou coadjuvante justamente numa das principais datas de exaltação da pátria. Um moscovita mais apegado aos costumes até tentou se sobrepor à festa argentina entoando o hino nacional — “Rússia, nosso Estado sagrado/ Rússia, nosso país amado” —, mas desistiu diante da pouca adesão popular.
Não que a invasão estrangeira seja capaz de apagar o nacionalismo eslavo. Ao contrário: as camisas da seleção anfitriã são as mais frequentes nas ruas às vésperas da abertura, amanhã, entre Rússia e Arábia Saudita. Mas a Copa fez com que os russos abrissem uma exceção e deixassem a festa ser contaminada por sotaques de todos os cantos.
— As pessoas são muito amigáveis. Caminhamos aqui como se fosse nosso país — resumiu o costa-riquenho Daniel Bianchini, de 47 anos, enquanto observava uma festa que misturava uruguaios, argentinos e egípcios.
Os estereótipos sobre o país-sede, é claro, seguiam presentes. Mas eram encarados com um misto de divertimento e prazer pelos australianos Dora Hostee, Steven Panaretos e John — que omitiu o sobrenome com um sorriso travesso. Questionados sobre o que pensam da Rússia, Dora respondeu “Putin”; Steven mencionou a Guerra Fria; e John, espirituoso, comparou a expectativa pela seleção do veterano Tim Cahill com a famosa arquitetura moscovita.
— Nós, da Austrália, esperamos vencer aqui. Mesmo que precisemos levar todos os jogos para os pênaltis. As vitórias não precisam ser lindas, podem ser feias. Já as cidades da Rússia, sim, são lindas.
Na torre de Babel da Copa, marroquinos viviam tudo com a devida noção da relevância histórica — não da independência russa, mas sim do senso de ineditismo que cerca seu país neste Mundial. O Marrocos pode ser escolhido como sede do torneio pela primeira vez, no Congresso da Fifa, que será realizado hoje em Moscou.
— No Marrocos, amamos futebol e somos hospitaleiros. Podemos receber a Copa — opinou Alae Boudhali, de 24 anos, que testemunha seu primeiro Mundial. — Eu nunca tinha pisado fora do Marrocos. O povo me recebeu muito bem aqui.
Quem está no caminho dos anfitriões da fase de grupos se reservou o direito de ser mais cauteloso:
— Moscou é muito fria para um egípcio — ponderou Zaid Omar, segundo adversário da Rússia. — Mas até agora tudo é maravilhoso.
Já os russos, além de captar o espírito da festa, saíram mais esperançosos da invasão multinacional:
— Estou orgulhoso de ser russo — disse um sorridente Alexander Lyzhnik, de 22 anos. — Definitivamente passaremos da fase de grupos.

