Há uma surreal patetice na implacável guerra de Trump contra a grande mídia dos Estados Unidos. O presidente descontente responde a negativos “covfefes” com hashtags bregas e apelidos para seus percebidos adversários. Mas, para Trump, a contínua raiva contra a imprensa é uma clara tática política, desenhada para alimentar sua base e construir uma narrativa de vitimização. Desde que tomou posse, reclamou virtualmente sem parar da suposta cobertura injusta sobre a Casa Branca, colocando os jornalistas no papel de oposição. Ele também repetidamente quebrou assumidas convenções de decência da política americana; instigou as chamas da extrema-direita na sua base de apoio; e descaradamente lançou várias informações falsas sobre assuntos triviais e importantes. Seu comportamento compeliu a cobertura da imprensa que ele agora denuncia.
Claro, existe um legítimo debate a ser realizado sobre se a mídia é tendenciosa contra Trump, um presidente que radicalmente reformulou o clima político em Washington. Na semana passada, por exemplo, a CNN foi forçada a se retratar sobre uma matéria investigativa mal feita a respeito de conexões russas na campanha de Trump. O canal até demitiu três jornalistas associados à reportagem. O presidente e seus apoiadores se vangloriaram, mas ignoraram a disposição da CNN de se responsabilizar pelos seus erros — coisa que Trump nunca exibiu sobre suas declarações erradas e comentários incendiários. Pelo contrário, o presidente continua usando o megafone das redes sociais e os seus aliados na bolha da mídia de direita para denunciar toda a imprensa como inimiga do povo americano.
Trump dificilmente seria o primeiro político a fazer da desconfiança sobre a imprensa uma arma. As questões na Turquia são, é claro, profundamente maiores. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, resistiu a uma violenta tentativa de golpe há um ano, o que levou o seu governo a embarcar em um vasto expurgo nas instituições estatais e na sociedade civil. Mais de cem jornalistas foram jogados na prisão ou forçados ao exílio. Dezenas de veículos da imprensa foram fechados ou tomados por autoridades. Jornais que já foram considerados titãs viram seus editores criminalizados e seus escritórios invadidos.
Mas há algumas importantes similaridades a manter em mente. Erdogan e Trump canalizam uma espécie de nacionalismo majoritário ancorado em queixas contra elites cosmopolitas. E ambos retratam seus críticos como ameaças à nação. Brian Klaas, da London School of Economics, escreveu: “A lógica preliminar é a mesma: uma tentativa de minar a credibilidade dos que pedem explicações ao poder.”
Os dois já se defenderam dos críticos. No expurgo de Erdogan, Trump disse que os EUA não tinham muito direito de criticar a repressão. Erdogan descreveu protestos após a posse de Trump como desrespeitosos e aplaudiu o americano por chamar a CNN de “Fake News”. Naquele dia, Erdogan congratulou Trump por colocar o repórter da emissora “no seu lugar”. É o mesmo sentimento que muitos apoiadores de Trump provavelmente têm com cada nova hashtag ou ácido insulto contra jornalistas.

