A voltagem é alta, altíssima, mas cogitar a possibilidade de uma guerra civil entre independentistas catalães e espanholistas, como fez Julian Assange, fundador do Wikileaks, é absolutamente desproporcionado, coincidem analistas políticos. O enorme preço, no entanto, que se pagará pelo processo que culmina hoje é inquestionável. A força do separatismo catalão; o ressurgimento de um nacionalismo espanholista de extrema-direita; a polarização da sociedade com episódios de hispanofobia e catalanofobia; e a complexidade para gerir esta crise de Estado são o custo do conflito.
— Tanto o governo autônomo quanto o governo do Estado são dois carros de corrida indo em direção ao precipício. Eles se entreolham e dizem: “Vamos ver se você é capaz de ir adiante...” É uma corrida ao absurdo e ao vazio, à qual todos assistimos estupefatos, porque sabemos que já não tem retorno — opina Jorge Alberto Benedicto, especialista em sociologia política da Universidade Nacional à Distância (Uned).
Não é à toa que o socialista Felipe González, ex-presidente do governo (1982-1996), afirmou que esta crise de Estado é o problema que mais o preocupou nos últimos 40 anos. Um problema que começou a crescer em 2006, depois que a reforma do estatuto catalão, que ampliava as competências da região, foi aprovada pelo Congresso, sem o apoio do Partido Popular (PP), e referendada pelos catalães. Naquele ano, o PP apresentou um recurso ao Tribunal Constitucional que, em 2010, expediu a sentença: revogou 14 artigos e retirou a menção da Catalunha como nação. Foi muita lenha na fogueira independentista, cuja chama já tinha sido avivada pela crise econômica. Em 2012, no dia 11 de setembro (Dia Nacional da Catalunha), uma macromanifestação, com mais de um milhão de pessoas, mostrou em que o movimento independentista tinha se transformado.
— O PP, numa tentativa de capitalizar eleitoralmente sua postura diante do problema, apostou na inconstitucionalidade do estatuto. Desde então, o independentismo deu um pulo de 15% para 42%. Para que esta cifra caia terão que passar décadas — afirma Benedicto.
Por essas e por outras, como a passividade de Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol, que sempre se negou ao diálogo, o PP acabou ganhando o mote de “fábrica de independentistas”. Nas últimas duas semanas, no entanto, fechou-se o cerco ao referendo: Rajoy interveio na economia catalã, passando a controlar as contas, pouco antes que a Justiça ordenasse registros de escritórios, apreensão de materiais relacionados à consulta e detenções de altos funcionários do governo regional.
— A imagem de Rajoy melhorou com tudo isso, embora haja um grande setor da população que considera que, com sua passividade, perdeu seis anos nos quais poderia ter chegado a algum tipo de acordo — avalia Fernando Vallespín, professor de Ciências Políticas da Universidade Autônoma de Madri. — Seu desgaste, no entanto, poderá vir a partir de agora, porque terá que mostrar liderança. O diálogo será, mais que nunca, imprescindível.
Rajoy e o PP são, de fato, responsáveis por esta crise de Estado. Mas não são os únicos vilões nesta história sem mocinhos. Os líderes nacionalistas catalães são corresponsáveis. Esta é uma visão que analistas políticos compartilham, principalmente, depois de 2013, quando tanto uns como outros mostraram um escasso interesse em chegar, efetivamente, a um pacto. Por um lado, o governo espanhol batia sempre na mesma tecla de que a Constituição não permite o referendo. Por outro, o governo catalão usava a premissa do referendo, mesmo sabendo que Rajoy não aceitaria.
Este cabo de guerra foi conduzindo a sociedade à polarização, um alto preço que a Espanha terá que pagar: conviver com o forte independentismo e com o crescente sentimento de hispanofobia entre uma parte dos catalães. Uma fratura social que faz os cientistas políticos recordarem episódios como o dos flamengos, há 40 anos, que expulsaram de forma violenta os francófonos da Universidade de Lovaina, nos Flandres, Bélgica. Ou o terrorismo quebequense, que perpetrava sequestros e assassinatos no Canadá.
— Um clima de deterioração social e violência já ocorreu em democracias avançadas. Ou seja, o fato de termos uma renda per capita alta na Espanha e, principalmente, na Catalunha, não significa que isso não possa acontecer — opina Ignacio Molina, pesquisador do Real Instituto Elcano, o mais prestigioso centro de estudos espanhol.
Em setores da sociedade espanhola a catalanofobia também se percebe nas ruas, através das redes sociais e em imagens como a de dezenas de pessoas que, empunhando bandeiras espanholas e aplaudindo fervorosamente, se despediam de agentes da Policia Nacional e da Guarda Civil que partiam para a Catalunha com a tarefa de impedir a realização do referendo.
— A Espanha é o único país importante de toda a Europa que não tem um partido nacionalista, antieuropeu, anti-imigração. Este tipo de conflito pode gerar a reaparição do populismo nacionalista espanhol. Seria um custo muito triste — analisa Molina.
— Um nacionalismo chama o outro... — completa Vallespín. — O nacionalismo espanhol, que estava adormecido, começa a se fortalecer.

