JERUSALÉM — Um dia após a histórica declaração do presidente americano, Donald Trump, que reconheceu Jerusalém como a capital do Estado de Israel, protestos se multiplicaram pela Cisjordânia e pela Faixa de Gaza e grupos terroristas islâmicos ameaçaram os EUA com atentados. Enquanto a Autoridade Nacional Palestina (ANP) convocou uma greve geral em Gaza e na Cisjordânia, o Hamas convocou seus seguidores a darem início a uma terceira Intifada. Grupos terroristas islâmicos como a al-Qaeda e o Estado Islâmico (EI) também condenaram a decisão e prometeram ações de retaliação contra os EUA. Segundo o Exército israelense, três foguetes foram disparados de Gaza contra o território do país, mas não causaram danos. Até agora, mais de 30 pessoas foram detidas e cem ficaram feridas, mas o grande teste para as forças de segurança deve acontecer nesta sexta-feira, já que grandes multidões devem comparecer às mesquitas para as orações coletivas, realizadas às sextas-feiras.
— Trump tomou a decisão errada — afirmou ao “Washington Post” a jovem Sarah Louay, de 15 anos, que carregava uma bandeira palestina. — Vamos levar nossas vozes a Jerusalém.
Em resposta ao disparo de foguetes, tanques e caças israelenses bombardearam duas unidades militares do Hamas em Gaza. “O Exército israelense considera o Hamas responsável pelas atividades hostis contra Israel a partir da Faixa de Gaza”, afirmaram as Forças Armadas em comunicado. A Brigada Al-Tawheed — um grupo jihadista que luta na guerra da Síria contra as forças leais ao ditador Bashar al-Assad, e não é ligado ao Hamas — assumiu a responsabilidade pelos disparos.
Na periferia de Ramallah, forças israelenses usaram bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral para dispersar manifestantes que queimavam imagens de Trump e do premier israelense, Benjamin Netanyahu, além de bandeiras dos EUA e Israel. Confrontos também foram registrados em Jerusalém Oriental, de maioria árabe. Hoje, o Conselho de Segurança da ONU realiza reunião de emergência para discutir o tema a pedido de oito dos 15 países-membros — entre eles Reino Unido, França e Itália.
Na quarta-feira, após o anúncio, o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, afirmou que os EUA não poderiam ser mais considerados mediadores justos no processo de paz entre israelenses e palestinos. A ANP afirmou que o reconhecimento de Jerusalém viola leis internacionais e resoluções das ONU. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, exortou palestinos a se mobilizarem em uma nova Intifada contra Israel, que classificou como “a única saída contra a aliança satânica entre Israel e os EUA”.
— A Palestina não será dividida. Todo o seu território e toda Jerusalém pertencem ao povo palestino — afirmou Haniyeh. — Esta é uma declaração de guerra contra o povo palestino no local mais sagrado para muçulmanos e cristãos. Amanhã (hoje) deverá ser um dia de fúria e o início de um amplo movimento que trará a liberdade a Jerusalém.
Nafeth Azzam e Ahmed al-Batsh, líderes da Jihad Islâmica Palestina, disseram-se prontos para retomar a luta armada e instaram a ANP a interromper todas as atividades coordenadas com Israel, voltar atrás em sua decisão de reconhecer o Estado israelense e declarar o fim dos Acordos de Oslo, base das negociações do processo de paz.
Em um comunicado capturado pelo grupo de monitoramento SITE, a al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) convocou seus membros a ajudarem os palestinos com doações de dinheiro e armas.
“Se não nos movermos, amanhã, o local mais sagrado para os muçulmanos, Meca, será vendido e não encontraremos ninguém para defendê-la”, diz a mensagem do grupo.
Já o Estado Islâmico fez ameaça direta aos EUA:
“Cortaremos suas cabeças e liberaremos Jerusalém”, diz a mensagem, em árabe, hebraico e inglês.
O reconhecimento de Jerusalém por parte dos EUA também levou facções palestinas, mediadas pelo governo egípcio, a acelerarem a devolução do controle da Faixa de Gaza — desde 2007 sob o comando do Hamas — à ANP. Inicialmente agendado para 1º de dezembro, o fim do prazo para o processo foi estendido até domingo.
O Fatah, partido político de Abbas, anunciou ontem que o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que tem visita prevista à região neste mês, “não é bem-vindo à Palestina”.
— Em nome do Fatah, eu digo que não vamos receber o vice de Trump nos territórios palestinos. Ele pediu para se encontrar (com Abbas) no dia 19 deste mês em Belém. Essa reunião não ocorrerá — afirmou Jibril Rajoub, secretário-geral da legenda.
A Casa Branca respondeu que anular a reunião prevista entre Abbas e Pence seria contraproducente, e afirmou que o vice-presidente continua disposto a se reunir com o líder palestino.

