Theresa May convocou eleições antecipadas porque queria um mandato para liderar a saída do Reino da União Europeia. O objetivo era aumentar a apertada maioria do Partido Conservador no Parlamento e, se possível, exterminar no processo sua principal oposição: o Partido Trabalhista. Como repetiu frequentemente na campanha, o país precisava de um líder “forte e estável” como ela, para lidar com as difíceis negociações com a Europa e não com um esquerdista incorrigível como o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Foi uma aposta. Para fazer isso, os conservadores teriam que conquistar tradicionais cadeiras dos trabalhistas no Norte da Inglaterra. E as chances pareciam estar ao lado de May. No dia da votação, no entanto, ficou óbvio que o plano sofreu uma reviravolta desastrosa.
O que deu errado para May? A premier herdou o cargo depois que David Cameron — que fez campanha contra o Brexit — renunciou ao ser derrotado no referendo. Após seis anos como ministra do Interior, ela conhecia bem o governo. E se mostrou experiente o suficiente para superar candidatos mais conhecidos, como Boris Johnson, então prefeito de Londres e agora ministro de Relações Exteriores. Admiradores a compararam com a iconoclasta Margaret Thatcher.
Mas o toque humano da campanha de May foi um fracasso. Se Thatcher exalava autoestima nas aparições em público, May foi uma figura desajeitada e esquisita. Foi zombada pela resposta absurdamente desinteressante à pergunta sobre a coisa mais inusitada que ela já havia feito — “corrido por um campo de trigo”. Mas, talvez, sua maior gafe tenha sido a fria resposta a uma enfermeira que lhe disse não ter recebido qualquer aumento salarial em oito anos: “Não existe nenhuma árvore mágica de dinheiro”, retrucou.
A falta de traquejo nas aparências públicas foi piorada pelo cheiro da desonestidade. A primeira-ministra declarou repetidas vezes que não convocaria eleições antecipadas — e o fez. Antes, havia feito campanha com Cameron para permanecer na União Europeia, mas agora lidera uma saída brusca. O padrão se repetiu, para além de suas propostas políticas conservadoras durante a campanha: quando o plano de aumentar impostos a idosos que dependem de assistência social repercutiu mal, e foi criado o slogan “a taxa da demência”, May abandonou o plano. Depois, negou que o havia criado.
Como defensor de longa data da esquerda, Corbyn era mais conhecido por seu ativismo antiguerra do que por sua atuação política. Porém, graças às peculiaridades internas do Partido Trabalhista, emergiu como líder após a humilhante derrota da legenda nas eleições de 2015. Desde então, se afastou de vários adversários da ala centrista e enfrentou uma avalanche de cobertura negativa dos tabloides de direita. E não se encaixou no padrão de líder da oposição. Aparecia desalinhado, mal vestido e se vendia como uma figura recatada durante as primeiras aparições nos debates parlamentares. As pesquisas sugeriram a probabilidade de uma derrota histórica. Mas, quando ele começou a fazer campanha, algo mudou.
O que deu certo para ele? Seu estilo descontraído foi um alívio em comparação à ansiedade de May. Sua experiência em protestos provou ser uma prática valiosa para aparições nos comícios trabalhistas em todo o país. Mais do que tudo, ele parece ter conseguido responder à ânsia dos eleitores jovens e urbanos do país, que se sentiram contrariados pelo Brexit e por anos de políticas de austeridade da liderança conservadora. À medida que os números do Partido Trabalhista subiam, até mesmo os detratores de Corbyn começaram a aceitá-lo, mesmo que a contragosto.
Agora o Reino Unido assiste a um Parlamento rachado. Isso pode significar uma série de cenários, incluindo a possibilidade de que Corbyn se torne primeiro-ministro. Mesmo que isso não aconteça, há poucas chances de que ele deixe o banco da frente. May pode unir uma pequena maioria ou obter apoio suficiente para um governo minoritário, mas está aparentemente pendurada por um fio. Sua voz tremeu no início da manhã de ontem quando aceitou a vitória em seu próprio círculo eleitoral, com suas promessas de estabilidade soando mais como delírio.
O Partido Trabalhista pressiona para que ela renuncie, e pelo menos um conservador do Parlamento já pareceu sugerir que May pode mesmo sair. Se ela fizer isso, será o mandato de premier mais curto desde a década de 1920.
Uma eleição convocada antecipadamente para dar a estabilidade antes das negociações do Brexit pode acabar surtindo o efeito contrário. Há rumores que isso poderá levar a outro referendo ou a outras eleições. No mínimo, o Reino Unido pode ter que pedir à União Europeia uma prorrogação para o início das negociações do Brexit, a partir deste mês. Neste momento, a única certeza sobre o futuro do Reino Unido é a própria incerteza.

