Trump está certo ao pensar que para realmente pressionar a Coreia do Norte ele precisa da ajuda da China. E está certo sobre outra coisa: É complicado. Como disse o “USA Today”, “a China é a vizinha da Coreia do Norte, sua protetora, principal parceira comercial e sustentação econômica”. Os destinos das duas nações foram entrelaçados no fim da Segunda Guerra, com o estabelecimento dos Estados comunistas, e o vínculo foi cimentado durante a Guerra da Coreia, quando Pequim enviou tropas para pressionar as forças da ONU.
Enquanto o Japão, a Coreia do Sul e os EUA estão cada vez mais preocupados com o arsenal nuclear da Coreia do Norte e com seu programa de mísseis, para Pequim, o colapso do regime de Kim Jong-un seria um pesadelo. A China teria de intervir para apoiar qualquer governo que substitua Kim ou arriscar um colapso econômico total de seu vizinho. Os norte-coreanos, que já passaram por escassez de alimentos, poderiam se tornar refugiados. Um colapso também poderia abrir a porta para uma reunificação com a Coreia do Sul, outro pesadelo para Pequim. Uma Coreia reunificada aliada aos EUA seria potencialmente um poderoso rival regional.
Alguns na China acham inclusive que a ameaça pode ser existencial. Como o ex-correspondente do “Washington Post” John Pomfret: “A União Soviética desmoronou quando o Muro de Berlim caiu. Se a terra de ninguém que separa as duas Coreias for violada, poderia acontecer o mesmo a Pequim?”.
Empresas chinesas também se beneficiam dessa relação. O programa de armas da Coreia do Norte depende muito de componentes estrangeiros, que são adquiridos de empresas sediadas na China, segundo especialistas. De acordo com um relatório divulgado pela ONU, essas empresas têm secretamente (e ilegalmente) enviado remessas para a Coreia do Norte. Não está claro se o governo chinês tacitamente aprova essas exportações.
Mas há sinais de que o relacionamento esteja se fraturando. No ano passado, a China assinou um acordo que sancionou severamente a Coreia do Norte. Em fevereiro, suspendeu as importações de carvão do país, uma ação que coincidiu com a acusação norte-coreana de que Pequim dançava ao “conforme a música dos EUA”. Há ainda rumores de que Xi Jinping não goste de Kim — que não visitou a China desde que se tornou líder, no fim de 2011. Então, talvez Trump consiga fazer com que Pequim coloque mais pressão sobre Pyongyang. Mas vários presidentes dos EUA também mantiveram essa esperança.

