SÃO PAULO - Considerado um dos principais intelectuais colombianos, Eduardo Pizarro Leongómez é cientista político, escritor de várias obras sobre as guerrilhas na América Latina e atualmente é embaixador do governo de Juan Manuel Santos na Holanda. Participou das negociações de paz entre o governo e as Farc em Cuba e acaba de lançar um livro chamado “Cambiar el futuro” (“Mudar o futuro”), em que conta a história dos processos de paz na Colômbia desde os anos 80. Em entrevista ao GLOBO, comenta o atraso na entrega das armas pelas Farc e fala sobre os desafios do processo de paz em seu país.
Sem dúvida esse prolongamento do prazo geral mal estar na opinião pública. A guerrilha está atrasada em entregar cerca de sete mil armas à ONU e em destruir os mais de mil depósitos secretos de armas e explosivos que estão espalhados pelo país. disseminados pelo país. Mas se o novo cronograma for cumprido com vigor e as Farc conseguirem cumprir outros termos do acordo, o processo de paz pode recuperar a sua credibilidade. A bola está no campo das Farc.
Sim, é um fator de enorme preocupação, especialmente para países que fazem fronteira com a Colômbia, como o Brasil. Além de se cumprir prazos, deve haver uma forte e contundente exigência da comunidade internacional, e em especial dos países vizinhos, para que as Farc entreguem as coordenadas exatas desses depósitos de armas, porque eles podem cair em redes criminais variadas, podendo ser contrabandeadas a países fronteiriços.
O primeiro processo de paz negociado com êxito na América Latina com grupos guerrilheiros surgidos após a Revolução Cubana aconteceu justamente na Colômbia com o M-19. As negociações aconteceram em 1989 e outros grupos guerrilheiros se desmobilizaram nos anos seguintes. Este processo de paz influenciou acordos semelhantes em países como El Salvador e Guatemala. A Colômbia foi, portanto, pioneira na paz negociada no continente e a última a sair da luta armada.
As razões para a complexidade desse acordo com as Farc, assim como as negociações com a ELN, são múltiplas, mas uma é chave: os diversos grupos guerrilheiros que existiam na Colômbia sob diferentes ideologias (pró-soviéticos, pró-chineses, pró-cubanos, indigenistas, nacional-populares) nunca conseguiram construir uma frente político-militar como na América Central dos anos 80. Cada grupo quis ter seu “minuto de fama”. Esse “egocentrismo mediático” levou a uma negociação grupo a grupo, e isso tomou muito tempo.
Sem dúvida, o ideal seria uma negociação binária: Estado-insurgência, como aconteceu em El Salvador e na Guatemala, onde distintos grupos guerrilheiros (cinco em El Salvador e quatro na Guatemala) negociaram conjuntamente agrupados com um Estado. Isso não foi possível na Colômbia, onde o processo de negociação já dura 27 anos. Na Guatemala, em El Salvador e na Irlanda do Norte, processos semelhantes duraram entre sete e oito anos.
Desse ponto de vista, as negociações em separado foram um desastre porque combinamos pós-conflitos parciais com a persistência da violência. O único ponto positivo é que fomos diminuindo os confrontos de maneira progressiva.
O melhor é que se encerra um dos nove conflitos mais prolongados do mundo e o último da América Latina. Além disso, o acordo prevê necessidades urgentes na Colômbia como a modernização do campo, um dos mais desiguais e ineficientes do mundo. Enquanto o país pode ser uma potência agrícola, a imensa maioria das zonas rurais é de latifúndios improdutivos.
O pior do acordo não está no texto, mas sim no contexto grave de polarização política entre os partidos que apoiam o acordo e seus opositores. A implementação do que foi acordado em Havana corre risco de não acontecer se não construirmos consensos mínimos.
Há mais três grandes desafios adicionais. O primeiro é a existência de redes criminais com um extenso portfólio (tráfico de drogas, mineração ilegal, extorsão, tráfico de pessoas) que tentarão recrutar os desmobilizados das Farc e aproveitar sua experiência. O segundo são as garantias de segurança para os desmobilizados, num país que acumulou muitas e perigosas “dívidas de sangue”.
Três, o anúncio de setores opositores de revisarem os acordos se eles ganharem as eleições do ano que vem. Há um risco aos acordos se a Colômbia, por exemplo, eleger um presidente contrário a eles no ano que vem.
É impactante o contraste entre a recepção internacional ao acordo e a local. Internacionalmente, o presidente Juan Manuel Santos ganha o prêmio Nobel da Paz e o acordo é visto como uma boa notícia dentro de um contexto complicado. Mas dentro da Colômbia, por diversos motivos, alguns compreensíveis como as longas feridas deixadas por um conflito tão grande e outras inaceitáveis como o uso eleitoral dos acordos, a população está dividida.
As Farc surgiram, como muitos grupos armados no continente, inspiradas na Revolução Cubana. “Como ser uma esquerda combativa sem armas? “ “Como ser de esquerda agora numa época em que o continente vive uma falência dos modelos de esquerda?”
A meu ver, parte da discussão também parte de como a esquerda latino-americana precisa repensar a fundo seu modelo de sociedade. A esquerda promoveu avanços na redução da pobreza e da desigualdade, mas não desenhou um modelo sólido para garantir essas melhorias a longo prazo.
O discurso das Farc sobre igualdade e justiça social, o aprofundamento da democracia, a preservação do meio ambiente e a igualdade de gêneros aponta na direção correta, mas não se constitui num projeto articulado de sociedade. A esquerda a nível global está vivendo uma dura travessia ideológica e as Farc não são exceção.
É difícil fazer prognósticos, mas a conjuntura internacional não é a mais favorável. Não somente consideremos a “era Trump”, mas estamos vivendo o impacto devastador da crise na Venezuela. O atual discurso “anti-bolivariano” afeta muito as Farc, que não param de apoiar o regime Maduro, que, por sua vez, tem poucas simpatia na Colômbia.
Há ao menos três razões principais. Primeiro, a ELN se diferencia das FARC que era uma organização fundada no “centralismo-democrático” de inspiração leninista. A ELN é uma federação de chefes regionais, o que dificulta muito a construção de consensos internos. Segundo que a ELN está profundamente dividida entre setores moderados e fundamentalistas, que querem impor uma agenda de negociação maximalista _ o que na Colômbia chamamos de “revolução por decreto”. E finalmente há a situação na Venezuela: os setores mais radicais apostam que a guerra civil no país vizinho é inevitável e que seria papel da guerrilha apoiar o governo bolivariano e não sentar na mesa de negociação.
Estive muito próximo de Carlos nos três anos que antecederam seu assassinato. O M-19 (Movimento 19 de abril) convidou um grupo de intelectuais para discutir a migração das armas à política em 1987. Nos reunimos em múltiplas ocasiões em Havana, Manágua, Cidade do México. Havia as discussões sobre a abertura do modelo soviético, o grupo estava cansado da guerra e não queria se ligar ao narcotráfico. A principal lição de Carlos foi, sem dúvida, seu compromisso com a justiça porque, apesar de ser de uma classe privilegiada, dedicou sua vida às mudanças sociais.
O processo de paz com as Farc e cedo ou tarde com a ELN vai permitir que o país redefina a fundo suas prioridades em matéria de segurança interna e assim possa lutar com mais eficácia contra o tráfico de drogas e outras formas de crime organizado. A Colômbia pode passar de ser um “país problema” a um país com maior capacidade de contribuir positivamente com a região para superar seu principal flagelo: os altos índices de criminalidade.
A pior notícia que nós colombianos recebemos foi o aumento descomunal dos hectares plantados de coca em 2015 -hoje em níveis maiores do que há 15 anos, quando se iniciou o Plano Colômbia. Esse aumento deve a para mim péssima decisão do governo de parar de fumigar áreas de cultivo ilícito, que havia realmente diminuído a produção de cocaína. Segundo, a pressão nos últimos dois anos das Farc para que a população camponesa plantasse folhas de coca para que depois elas fosse moeda de troca em programas previstos no acordo de paz de substituição de cultivos. Isso é um problema grande para a Colômbia.

