MADRI - Em nenhum outro lugar se sente com mais força o Brexit do que em Gibraltar, o enclave britânico de 6km quadrados no Sul da Espanha. Além de perder o acesso ao mercado comum, a saída da União Europeia (UE) poderia prejudicar a economia até agora próspera, baseada em serviços bancários, seguros, turismo e indústria de apostas.
O governo espanhol aproveitou a brecha do Brexit para fazer a reivindicação diplomática. O país oferece a Gibraltar — em mãos britânicas há mais de 300 anos — que aceite a soberania espanhola (ou um regime compartilhado) como modo de salvar sua participação na UE.
O conflito aumentou agora, após Michael Howard, ex-líder dos conservadores, dizer que o governo britânico está disposto a defender Gibraltar como fez a então premier Margaret Thatcher com as Ilhas Malvinas: usando intervenção militar.
May baixou o tom após dois dias, mas insistiu que a soberania é inegociável. Ela disse isso a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, a quem recebeu para avançar nas negociações de saída. Tusk irritara os britânicos quando anunciou que a UE dará à Espanha poder de veto a qualquer acordo que o bloco chegue com o Reino Unido sobre Gibraltar. Isto acelerou a ansiedade de seus moradores.
Se a Espanha tenta forçá-los a mudar de nacionalidade, a lógica indica que bloqueará um eventual pacto que outorgue a Gibraltar a liberdade de circulação e o acesso ao mercado comum, aspectos vitais para que o enclave não entre numa grave crise.
— A fronteira e o acesso ao mercado comum são cruciais. Nós importamos tudo o que comemos. Um terço dos trabalhadores cruza diariamente a fronteira com a Espanha — assinalou Edward Macquisten, chefe da Câmara de Comércio local.
Os moradores de Gibraltar reconhecem o papel da Europa em seu destino: 95,9% deles votaram contra o Brexit. Porém, mesmo assim, é unânime o desejo de manter o vínculo com o Reino Unido.

