Início Mundo Análise: imprevisibilidade e incoerência na política externa americana
Mundo

Análise: imprevisibilidade e incoerência na política externa americana

Envie
Envie

WASHINGTON — Durante sua campanha presidencial, Donald Trump resumiu sua abordagem para a política externa da seguinte forma: “Temos que ser um país mais imprevisível”. Mas agora que ele ocupa o posto de comandante em chefe, aliados preocupados acreditam que essa imprevisibilidade pode ser mais bem descrita como incoerência — uma tendência perigosa num momento de alta tensão com a Rússia e a Síria, e no qual navios de guerra americanos partem rumo à Península Coreana.

A ambiguidade sempre teve lugar na diplomacia. Mas Trump a acrescenta a uma abordagem de improviso às relações internacionais. Ele tem desdém pelas normas e pelo protocolo, uma natureza impulsiva e uma tendência a dar declarações contraditórias. O fato de aqueles que dizem falar pelo presidente — membros do Gabinete e conselheiros do alto escalão da Casa Branca — também oferecerem declarações contraditórias sobre os rumos da política americana só ajuda a intensificar um cenário caótico.

Em entrevistas nas últimas semanas, embaixadores estrangeiros em Washington reclamaram — diplomaticamente, é claro — que enfrentam dificuldade para explicar as intenções dos EUA aos governos de seus países, o que, segundo eles, está criando tensões em alianças até então sólidas.

— Ninguém na Rússia sabe dizer qual é a política americana para o país. O mesmo acontece na Síria ou na China — diz um embaixador, que como todos os outros falou em condição de anonimato. — Não tenho certeza se há uma política. Eles me ouvem e dizem que terei um retorno quando houver uma política para o meu país.

Segundo os diplomatas, há uma preocupação para não danificar as relações com o governo de Trump, ainda em seu período inicial, e eles afirmam que parte do problema é que a Casa Branca, ainda vivendo sob a aura da transição presidencial, concentrou-se em questões domésticas, como a Saúde e a reforma fiscal.

No entanto, com o passar das semanas, aumentaram os temores de que a comunicação limitada cause confusões caso uma crise diplomática surja em algum lugar do mundo.

— Não sei o que pode acontecer — afirmou um embaixador. — Tínhamos um presidente que demorava três meses para tomar uma decisão e agora temos um que toma decisões a cada três segundos. Isso é preocupante.

O estilo pouco ortodoxo de Trump causou preocupações já em seus primeiros encontros internacionais: com o premier japonês, Shinzo Abe; a primeira-ministra britânica, Theresa May; e a chanceler alemã, Angela Merkel.

— Ele não tem um papel para ler, e os rumos da discussão são ditados pelo visitante — afirma um diplomata. — É como se você o encontrasse em um bar e começasse a conversar.

Membros da equipe presidencial insistem que Trump chega aos encontros bastante preparado, mas reconhecem que especificidades do novo governo ainda são “um trabalho em progresso”.

— São os primeiros dias. Muita coisa ainda não foi analisada — diz Michael Anton, chefe de comunicações do Conselho Nacional de Segurança.

Muitos enviados diplomáticos não escondem a frustração pela demora na nomeação de cargos críticos, especialmente no Departamento de Estado, que muitas vezes não é capaz de oferecer as informações mais básicas. O porta-voz do departamento, R.C. Hammond, reconhece que a transição do novo governo “se estenderá por muitos meses”, mas garante que Trump e o secretário de Estado, Rex Tillerson, buscam uma nova maneira de conduzir relações internacionais, já que o velho método não tem funcionado.

— É perturbador que os americanos tenham se tornado tão imprevisíveis — reclamou um embaixador. — Imprevisibilidade é a pior coisa que há.

Siga-nos no

Google News