Há apenas um mês, seria difícil imaginar que o Partido Trabalhista teria motivos para fazer festa depois das eleições. O líder Jeremy Corbyn estava desacreditado e o partido, rachado em relação à sua plataforma de governo. Suas ideias radicais, como a defesa da estatização de ferrovias, correios e do serviço de abastecimento de água, são rejeitadas pela ala de centro. A campanha da esquerda, no entanto, contou com um exército que teve papel-chave: os jovens. As primeiras análises sobre os resultados indicam que a participação dos eleitores entre 18 e 24 anos foi bem acima dos 43% registrados na última eleição. Embora o percentual deste ano ainda não esteja confirmado (a Sky News falou em 67%), sabe-se que a maioria votou nos trabalhistas e rejeitou os planos de Theresa May para o Brexit.
O susto provocado pelo plebiscito do ano passado, quando o Brexit foi aprovado principalmente por eleitores mais velhos, serviu como incentivo para que a juventude espantasse o fantasma da abstenção, figura habitual nas eleições britânicas desde os anos 1970. Cerca de 750 mil pessoas que completaram 18 anos depois do referendo se registraram para votar. Na faixa entre 18 e 35 anos houve um milhão de registros desde abril. O comparecimento às urnas cresceu em áreas universitárias, como Cambridge, Manchester e Newcastle, onde a esquerda venceu.
A campanha trabalhista — que prometeu ensino superior gratuito — teve mais apelo entre os jovens. Desiludidos com as perspectivas do Brexit, seu voto foi interpretado como um protesto contra May, cujo governo endureceu o discurso contra a imigração. Além disso, o estilo frio da premier e seu uso ineficiente das mídias sociais foram pontos negativos na luta pelo voto jovem.
— Queremos um governo que se esforce para receber estudantes internacionais e manter a diversidade nas universidades. Nos últimos sete anos de governo conservador, o financiamento do ensino superior foi radicalmente reduzido, e as dívidas com os empréstimos estudantis agora nos seguem até a metade da vida — disse a presidente da União Nacional dos Estudantes, Malia Bouattia.
Um outro dado sobre a análise dos votos comprovou mais uma falha na campanha dos conservadores. Além de dedicar pouca atenção aos jovens, May não conseguiu conquistar eleitores da extrema-direita. Os trabalhistas levaram votos anti-establishment que antes iam para partidos como o Ukip, que não elegeu nenhum representante. (C.S.)

