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David Hockney, o artista britânico que partiu em busca das cores da Califórnia, morre aos 88 anos

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David Hockney, o artista britânico que partiu em busca das cores da Califórnia, morre aos 88 anos
David Hockney, o artista britânico que partiu em busca das cores da Califórnia, morre aos 88 anos

Por William Schomberg

12 Jun (Reuters) - Crescendo na sombria região norte da Inglaterra, David Hockney reparava nas sombras bem definidas nos filmes de Hollywood da dupla de comediantes Laurel e Hardy, o Gordo e o Magro.

“Sombras fortes significavam muito sol”, lembrou o pintor à BBC em 2009. “Então pensei: bem, seja lá onde for, lá está sempre ensolarado.”

Duas décadas depois, Hockney mudou-se para Los Angeles para mergulhar naquela luz deslumbrante.

O artista, cujas representações em cores vivas da Califórnia viriam a torná-lo um dos artistas mais celebrados dos séculos XX e XXI, faleceu na quinta-feira, informou sua assessora de imprensa, Erica Bolton, em comunicado. Ele tinha 88 anos.

Não foi divulgada a causa da morte.

"AQUI ME SENTI LIVRE"

Inicialmente, quase tanto quanto por suas pinturas, Hockney era conhecido por sua própria imagem -- óculos de armação grossa, cabelo descolorido, jaqueta dourada brilhante -- que se tornou um símbolo dos Swinging Sixties britânicos.

Enquanto estudante de arte na cidade de Bradford, no norte da Inglaterra, onde nasceu, filho de um contador e de uma mãe metodista devota, Hockney rebelou-se contra as convenções. Ele deu títulos a suas pinturas abstratas, como “Going to be a Queen for Tonight” e “Doll Boy”, numa época em que a homossexualidade era punível com prisão.

Para continuar seus estudos, em 1959 mudou-se para Londres, onde teve uma ascensão meteórica no movimento da pop art britânica e conviveu com estrelas que iam do bailarino Rudolf Nureyev a Mick Jagger.

Mas Hockney ansiava pela emoção que via nas obras dos artistas norte-americanos. Usando o dinheiro da venda de suas obras, ele visitou Nova York pela primeira vez em 1961, onde se tornou amigo de Andy Warhol, e mudou-se para a Califórnia três anos depois.

“Achei que as pessoas que produziam esse tipo de obra deviam viver em cores, então fui em busca disso”, disse ele, segundo uma biografia escrita pelo crítico de arte e amigo Peter Adam.

“Passei os primeiros 20 anos da minha vida na melancolia gótica do Norte. Aqui me senti livre.”

Suas pinturas de piscinas e homens nus no chuveiro se tornaram ícones de um estilo de vida ensolarado que ele documentou com tinta acrílica luminosa antes de dividir seu tempo entre Los Angeles, Londres e Paris no final da década de 1960 e na década de 1970.

Hockney permaneceu despretensioso, apesar do sucesso.

“Na verdade, ainda sou um estudante”, disse ele a Adam. “Acontece que tenho muitos cartões de crédito no bolso.”

Em 1985, quando foi convidado para jantar na Casa Branca com o presidente Ronald Reagan, o príncipe Charles e a princesa Diana, ele foi retido por meia hora pelos seguranças porque foi o único convidado a chegar a pé, escreveu seu biógrafo.

“VOCÊ NÃO SE APOSENTA FAZENDO ISSO”

As imagens de Hockney sobre amor, sexo e riqueza material levaram alguns críticos de arte a classificarem seu trabalho de trivial. Mas ele conquistou maior renome do que qualquer outro artista britânico do século XX.

Uma de suas pinturas mais famosas, “Retrato de um Artista (Piscina com Duas Figuras)” — mostrando uma pessoa nadando debaixo d’água e um homem olhando para a piscina — foi vendida por US$90,3 milhões em 2018, a obra mais cara de um artista vivo vendida em leilão na época.

À medida que envelhecia e sua vida se tornava mais doméstica, os cães substituíram os homens na obra de Hockney, numa época em que muitos de seus amigos estavam morrendo de Aids.

Ele disse que chorou por dois dias quando Stanley, um de seus amados dachshunds, morreu em 2001, tendo sido imortalizado em dezenas de pinturas e esboços.

No final da década de 1990, Hockney começou a voltar com mais frequência para visitar sua mãe no condado de Yorkshire, no norte da Inglaterra, onde havia crescido, e um amigo com doença terminal o encorajou a pintar as paisagens locais.

Sentindo-se cada vez mais solitário, mudou-se da Califórnia para a cidade litorânea de Bridlington, na costa do Mar do Norte da Inglaterra. Durante uma década, pintou grupos de árvores nuas no inverno, campos repletos de colheitas maduras e trilhas que se estendiam em direção às colinas suaves da região de Yorkshire Wolds.

Foi o período mais produtivo de toda a sua carreira, enquanto se apressava a capturar cenas que, segundo ele, mudavam mais drasticamente com as estações do que as da Califórnia.

“Você não se aposenta fazendo isso”, disse ele à BBC com seu forte sotaque de Yorkshire quando questionado sobre sua energia incansável. “Você simplesmente faz isso até cair.”

O ex-enfant terrible da arte britânica, quase sempre com um cigarro na mão, nunca parou de experimentar novas técnicas. Ele usou faxes para compartilhar seu trabalho e depois iPads para produzi-lo. Suas pinturas de Yorkshire resultaram em um vitral para a Abadia de Westminster, no centro de Londres.

Em 2018, Hockney comprou uma casa de fazenda na Normandia, no norte da França, e, com a ajuda de seu parceiro e assistente de longa data, Jean-Pierre Gonçalves de Lima, voltou seu olhar para os campos e as flores de seu jardim local. O friso “Um Ano na Normandia”, com 90 metros de comprimento, foi inspirado na Tapeçaria de Bayeux, de quase 1.000 anos.

A ética de trabalho de Hockney -- incutida nele desde que acordava diariamente às 6 horas para trabalhar em hospitais durante dois anos, quando se recusou a cumprir o serviço militar no exército -- mal diminuiu em seus últimos anos.

“Costumo pensar que se deve trabalhar todos os dias”, disse ele. “E é o que faço.”

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