JERUSALÉM — Falta de energia elétrica, disputas entre palestinos revividas, incertezas sobre o Catar: analistas e autoridades advertem contra uma nova explosão na Faixa de Gaza, dominada com mão de ferro há dez anos pelo Hamas. Em 15 de junho de 2007, o movimento palestino islamita assumiu o controle deste pequeno território encravado entre Israel, Egito e o Mediterrâneo, ao custo de uma quase guerra civil com seu rival Fatah.
Dez anos depois, o bloqueio israelense segue em vigor, a fronteira egípcia está fechada e três guerras opuseram Israel ao Hamas e seus aliados locais. A situação do enclave se agravou, após Israel decidir reduzir o fornecimento de eletricidade ao território. Esta medida levanta preocupações sobre um possível confronto entre israelenses e o movimento palestino.
Apesar do corte de energia, o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assegurou nesta terça-feira que não deseja um acirramento da situação com o Hamas.
— Israel não tem interesse em uma escalada e todos aqueles que pensam o contrário estão enganados — afirmou Netanyahu, cujas declarações foram transmitidas pela rádio pública.
Os moradores de Gaza correm o risco de ter apenas duas horas de eletricidade por dia.
— Aqueles que pagam o preço mais elevado, são os habitantes de Gaza — afirma o ativista de direitos Humanos Hamdi Chaqura, enquanto a reconstrução do enclave se arrasta, quase metade da força de trabalho está desempregada e mais de três quartos dos habitantes depende de ajuda humanitária.
O fechamento das fronteiras e a destruição de grande parte dos túneis de contrabando para o Egito afundaram a economia de Gaza, uma crise agravada pela divisão política e geográfica resultante do confronto entre o Hamas e a Autoridade Palestina.
Este último, estabelecido a algumas dezenas de quilômetros de distância, na Cisjordânia ocupada, parece ter decidido pressionar o Hamas: em abril, reduziu a remuneração do seu pessoal que permaneceu em Gaza.
De modo que, em pleno mês do Ramadã, habitualmente bom para o comércio, o marasmo reina.
— Ninguém compra ou vende desde que os funcionários públicos pararam de fazer girar os mercados — lamenta Nahed Abou Salem, que tem uma loja de doces no enorme campo de refugiados de Jabalia.
— De qualquer forma, não podemos produzir sem eletricidade — acrescenta Aed Hassuna, vendedor de café de 34 anos. Todos os dias, o gerador que alimenta seus moinhos de grãos custam 300 shekels, cerca de 75 euros, um sistema absolutamente não rentável.
Os habitantes com melhores condições de vida não têm mais do que três ou quatro horas de eletricidade por dia. Neste cenário, os hospitais e instalações de tratamento de água podem parar. Significa um "colapso do sistema" que ameaça dois milhões de palestinos que vivem reclusos na Faixa de Gaza, adverte o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
Até agora, o Catar, que apoia o Hamas, injetava fundos a cada crise. O rico emirado também assegurava a construção ou reconstrução de grande parte da infraestrutura e recentemente lançou a construção de novas cidades.
Mas Doha enfrenta atualmente uma grave crise diplomática. Seus vizinhos do Golfo fazem pressão para que rompa relações com os movimentos que considera "terroristas" e o Hamas.
Neste caso, "os grandes perdedores, somos nós. Somos nós que pagaremos o preço", prevê Ahmed Youssef, um líder do Hamas que pede diálogo e moderação.
, acrescentando um documento político que, como esperam seus líderes, lhe permitiria voltar para o jogo das negociações internacionais. Mas, enquanto perdeu nos últimos anos o apoio da Síria e do Egito, o Hamas, mais isolado do que nunca, deve agora lidar com a Autoridade Palestina, pressionada por Arábia Saudita e Egito.
Em um ambiente onde, para os jovens, "a morte é melhor do que viver", nas palavras de Ahmed Youssef, a eletricidade tem sido nos últimos anos o único assunto que provocou protestos anti-Hamas, imediatamente reprimidos. Agora, a questão é saber se o grupo irá desviar as tensões internas contra Israel.
Ambos os lados observam desde 2014 um cessar-fogo à espera do próximo confronto.
— A bola está no campo do Hamas — disse, enigmático, o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman.
Para o cientista político Mukhaïmer Abu Saada, o isolamento político e bloqueio vão continuar a menos que o Hamas renuncie ao poder. Tal renúncia é a única maneira de "evitar mais desastres", diz ele.

