SÃO PAULO - Presidente da Comissão Europeia entre 2004 e 2014 e ex-primeiro ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso acredita que a Europa está resistindo à ameaça do populismo e do nacionalismo exagerado, que surgiu após a aprovação da saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Para sustentar seu argumento, cita como exemplo as eleições recentes da França e da Holanda, em que políticos de extrema-direita foram derrotados.
Ao comentar a situação política do Brasil, Barroso evita opinar sobre a situação do presidente Michel Temer, que enfrenta nesta quarta-feira a votação da admissibilidade da denúncia contra ele por corrupção na Câmara dos Deputados. Embora a comunidade internacional esteja preocupada com o país, o Brasil deve sobreviver às crises política e econômica, na opinião de Barroso e tem condições de escolher se quer continuar sendo um país em desenvolvimento ou entrar de vez no chamado primeiro mundo.
Após fazer uma conferência na Casa das Garças, no Rio, na terça-feira, Barroso está em São Paulo para participar de uma reunião do Goldman Sachs, onde exerce o cargo do presidente do conselho do banco, e de uma palestra na Fundação Fernando Henrique Cardoso. Na tarde desta quarta-feira, o português recebeu a imprensa na sede da instituição financeira na Zona Sul de São Paulo. Leia trechos da entrevista:
Depois do Brexit e da vitória de Trump, nos Estados Unidos, a opinião pública previu uma onda populista na Europa. E ainda estamos, em certa medida, preocupados. Mas até agora, podemos dizer com segurança que não se verificou o prognóstico de que iria haver uma onda populista na Europa. Na Holanda, o partido de extrema-direita não ganhou as eleições. Na França, Marine Le Pen teve derrota considerável, e Emmanuel Macron ganhou com um programa de integração europeia. A União Europeia é um projeto político para paz. A integração econômica é um meio para tornar impossível a guerra para países que passaram séculos e séculos a destruir-se. Por isso, é importante que a União Europeia seja mais forte.
Acho que é uma reação à globalização: temos uma Rússia mais nacionalista, Estados Unidos mais nacionalistas, além de tendências nacionalistas na Europa. As pessoas estão inquietas porque o chamado cidadão, o homem da rua sente uma certa ansiedade em relação ao futuro. De qualquer maneira acho que a globalização vai continuar. Há uma dialética entre fluxo e fricção. Fluxo de trocas comerciais, financeiras, de movimentos de pessoas, do turismo, do tráfego aéreo... Mas também há resistência, há fricção. Quem vai ganhar? Acho que o fluxo. A não ser que haja uma grande catástrofe global, que é uma possibilidade que não pode ser descartada, acho que em dez anos quem vai ganhar é o fluxo.
Ainda há quem pense que o Brexit é reversível, mas acho que temos que encarar como mais provável. Eu lamento essa decisão. Acho que não foi bom para a Europa nem para o Reino Unido. É um país muito importante, a quinta economia do mundo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Obviamente quando perdemos um membro do clube dessa qualidade, o clube fica mais pobre. Dito isso, é verdade também que o Reino Unido sempre teve uma posição excepcional na União Europeia. Era visto como um parceiro relutante. E por isso estão aparecendo hipóteses que antes não apareciam, como, por exemplo, de defesa, porque o Reino Unido era sempre muito crítico a iniciativas no domínio da defesa porque entendia que isso poderia descaracterizar Otan. A União Europeia já existia antes do Reino Unido e vai existir sem o Reino Unido. Mas acho que seria inteligente encontrar o acordo mais construtivo possível.
Vocês devem conhecer aquela frase: ‘o Brasil não é para principiantes’...
O que posso dizer em termos gerais é que se o Brasil atravessar essa crise, e eu acho que vai, vai mostrar mais uma vez sua resiliência. O Brasil já passou por muitas crises. Se conseguir ultrapassar, sem pôr em risco suas instituições, como parece ser o caso, mostra que o Estado de Direito, a liberdade, não estão em risco. Claro que a comunidade internacional fica preocupada quando as notícias não são boas. A economia não tem estado bem, mas já tem apresentado resultados um pouco mais positivos. O Brasil é grande parceiro da União Europeia. A União Europeia é o primeiro investidor no Brasil, e o Brasil já é o quinto investidor na União Europeia. Sabemos que tem havido problemas políticos, mas temos confiança que o Brasil vai ultrapassá-los. Brasil tem dinamismo. Em algumas áreas está nas primeiras posições do mundo, em termos de agricultura, de commodities.
Fui um dos primeiros líderes mundiais a dizer que o Brasil deveria ter um assento no Conselho de Segurança da ONU. Ficaria feliz se entrasse na OCDE. Penso que o Brasil tem que tomar uma decisão de fundo: se quer ser um país muito importante do chamado mundo em vias de desenvolvimento ou se quer ser um país de primeiro mundo. Em vosso lugar, não exitava, preferiria ser do primeiro mundo. Ainda temos que avançar em alguns pontos de desenvolvimento, e as forças que apoiam o comércio são aquelas que apoiam modernização administrativa.

