BUENOS AIRES - A política é uma aventura perigosa: as tendências mudam, às vezes brutalmente, sem avisar. As eleições presidenciais francesas — confirmadas no domingo com o primeiro turno das legislativas — e as parlamentares britânicas são um exemplo perfeito. Marcadas por semelhanças e profundas diferenças, ambas demonstraram que o avanço aparentemente irresistível do ultranacionalismo e do populismo não é inevitável. A decisiva vitória dupla da República em Marcha, de Emmanuel Macron, frente à xenófoba Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen — tanto nas eleições presidenciais como no primeiro turno das legislativas —, pode ser interpretada como uma nova manifestação da rejeição às extremas-direitas europeias. No Reino Unido, o eurofóbico Ukip acabou na semana passada quase pagando com seu desaparecimento pelas mentiras e manipulação eleitoral a favor do Brexit.
Mas as semelhanças terminam praticamente aqui. De concreto, quando a primeira-ministra Theresa May convocou eleições antecipadas em abril, o candidato a presidente da França Emmanuel Macron enfrentava a perspectiva de ter que governar com minoria parlamentária.
Sete semanas depois, May perdeu a escassa maioria que tinha no Parlamento britânico e agora tem que fazer malabarismos para permanecer no poder, enquanto o partido de Macron — que sequer existia há um ano — acaba de de provocar um terremoto político na França, seguro de obter uma aplastante maioria na próxima Câmara de Deputados.
Em outras palavras, enquanto Macron foi capaz de interpretar com lucidez e precisão as ambições dos franceses, May se deixou levar pelo desejo de consolidar seu poder e convencida por seus spin-doctors de que sua popularidade não precisava de esforços extras durante a campanha.
São coisas que acontecem — e as pesquisas de opinião podem se equivocar. Mas o resultado destas eleições nos dois países confirma que França e Reino Unido, apesar de sua proximidade geográfica, continuam sendo dois universos distintos. Principalmente quando se trata de sua posição em relação à Europa.
Profundamente apegados ao euro na França e alérgicos à moeda comum no Reino Unido, ambos eleitorados fizeram opções diametralmente opostas no que diz respeito à futura relação com a União Europeia (UE). Enquanto os britânicos insistem em abandoná-la, e apenas precisam decidir se querem um ruptura brutal ou progressiva, ao votar em Macron os franceses deram novamente um sim à Europa, a uma defesa comum e a laços cada vez mais estreitos com a Alemanha — no caminho para um destino verdadeiramente comum.
— Franceses e britânicos sempre tiveram percepções totalmente diferentes sobre as vantagens de se pertencer à União Europeia — confirma Charles Grant, diretor do Centro para a Reforma Europeia.
Em todos os casos, sem querer voltar atrás, o Brexit continua sendo um dos elementos-chave para refletir sobre o eleitorado britânico. O chamado Parlamento suspenso, que Theresa May acaba de herdar, parece ser a confirmação de que os britânicos preferem deixar o bloco de forma gradual e não brutalmente, como até agora propunha a primeira-ministra.
Mas há ainda outras diferenças entre as duas margens do Canal da Mancha. Enquanto Emmanuel Macron conseguiu dinamitar na França o velho sistema de partilha de poder entre a esquerda e a direita — criando uma força híbrida no centro capaz de aceitar elementos moderados de todos os horizontes —, os britânicos reforçaram nestas eleições sua tradicional política de bipartidismo.
Em ambos os casos, os eleitores parecem ter dado respostas diferentes aos mesmos problemas. Tanto franceses como britânicos foram desestabilizados pela mundialização. Todos se sentem aflitos por uma una imigração que acreditam ser incontrolável e ameaçados pelo desemprego, pela perda de identidade e pela mudança de status social.
Para responder a esses temores, Macron prometeu reformas econômicas e uma nova Europa, mais social e menos burocrática. No Reino Unido, por outro lado, o êxito recente da esquerda obrigará a direita conservadora a responder ao mandato popular e à sua exigência de uma política que leve mais em conta as expectativas das pessoas.

