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Em cerimônia, China celebra aniversário de Marx

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PEQUIM — Em cerimônia no Grande Salão do Povo, na coração político da capital chinesa, o presidente Xi Jinping comemorou ontem, com pompa e circunstância — e ao som do Hino Nacional —, o aniversário de 200 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx, neste 5 de maio. No discurso dirigido à cúpula e aos membros do Partido Comunista da China (PCC), destacou que a decisão de “inscrever o marxismo na bandeira do partido permanece absolutamente correta”, apesar das profundas transformações por que passou o mundo nestes dois séculos.

Sob uma imagem do autor do “Manifesto Comunista”, publicado há 170 anos, o líder chinês, que também é o secretário-geral do partido, pregou que a “adoção de uma via chinesa e a modernização” do marxismo também são totalmente corretas, cobrando dos correligionários a leitura dos clássicos do filósofo e economista político alemão como uma “maneira de ver o mundo” e “uma busca espiritual”.

— A vitalidade da teoria está na sua constante inovação. E o constante desenvolvimento do marxismo é o dever sagrado dos comunistas chineses. Devemos persistir em usar o marxismo para observar, interpretar e liderar os novos tempos, promover o desenvolvimento do marxismo com uma prática chinesa contemporânea, renovada e rica — afirmou o presidente, que tem reiterado o conceito de um “socialismo com características chinesas para uma nova era”.

O conceito foi incluído na Constituição da China como um dos pensamentos de Xi no início deste ano, quando o líder chinês — o mais poderoso desde Mao Tsé-tung, que governou de 1949 a 1976 — recebeu do Parlamento chancela para permanecer no poder além dos dois mandatos permitidos anteriormente.

No entanto, a narrativa de que o que o país tem agora é uma versão evoluída do marxismo parece esticar excessivamente a sua base teórica original. A ideia de que o proletariado deve deter os meios de produção para atingir uma sociedade igualitária contrasta frontalmente com o que se vê na segunda maior economia do mundo hoje — e esta é uma das maiores críticas de estudiosos de ciências sociais que se debruçam sobre o Império do Meio. O Estado chinês é, de fato, proprietário de muitas empresas, mas a sociedade é profundamente desigual.

No bairro pequinês de Sanlitun, enquanto um trabalhador, no final da tarde, carrega as garrafas plásticas que venderá para a reciclagem na motocicleta adaptada e colada com fita adesiva, não muito distante dali, em frente a um shopping center cheio de lojas de marca, está estacionado o Lamborghini vermelho no qual o motorista resolveu colar um imenso adesivo da Peppa Pig — personagem de desenho animado que faz sucesso entre os chineses — sobre o capô.

— A teoria geral do marxismo ainda está absolutamente correta, apesar das mudanças tremendas da sociedade — insistiu Xi.

A transição da ortodoxia maoista para a abertura de Deng Xiaoping, condutor das reformas econômicas que completam quatro décadas este ano, foi inspirada na ideia de que alguns poderiam enriquecer primeiro. Embora tenha tirado dezenas de milhões da linha de pobreza — sendo com isso responsável pela redução de 70% do contingente de pobres do mundo —, a China registra uma distância cada vez maior entre ricos e despossuídos, que ainda constituem um exército de muitos milhões.

Segundo os dados do Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a desigualdade na China é hoje maior do que em países capitalistas desenvolvidos, como Alemanha e Estados Unidos, mas ainda menor do que no Brasil e na África do Sul, que estão entre os campeões mundiais da desigualdade. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, era de 0,42 em 2015 na China, em comparação com 0,41 nos EUA (onde a desigualdade também aumenta) e 0,30 na Alemanha, numa escala de 0 a 1 — quanto menor o índice, mais igualitária a sociedade. Nos anos 80, quando a China era muito mais pobre, o índice de Gini era de 0,30.

— O Partido Comunista da China combina os princípios básicos do marxismo com as realidades da nova China e trouxe conquistas históricas, assim como mudanças profundas e fundamentais para o país. Tais conquistas provaram que somente ao aderir ao socialismo e desenvolvê-lo com características chinesas poderemos atingir o grande rejuvenescimento da nação chinesa — disse Xi, que defendeu que os membros do Partido Comunista sejam os guardiães do marxismo e não esqueçam das raízes socialistas do PCC, ao mesmo tempo em que buscam o desenvolvimento do país.

Nas últimas semanas, a mídia estatal chinesa, que costuma ecoar a linha do partido, tem explorado todos os aspectos do marxismo. A TV estatal está transmitindo séries especiais com a trajetória do alemão, para mostrar como suas ideias seguem relevantes para as próximas gerações. Alguns programas têm o nome de “Marx estava certo”.

Para popularizar a vida e obra do intelectual, de acordo com a agência Xinhua, um grupo de alunos e jovens professores da Universidade de Nanquim resolveu fazer pequenos filmes para divulgar na conta do WeChat (o primo chinês turbinado do WhatsApp) da instituição. Na China, até hoje todos os universitários, de humanas ou exatas, são obrigados a frequentar a disciplina sobre marxismo para se formarem.

— Eu sei quem foi Marx, mas não me lembro muito dessas aulas na faculdade. Confesso que achava bastante chatas. Nem eu nem meus colegas de trabalho tínhamos ideia de que Marx estava fazendo 200 anos — disse o jovem Li, de 24 anos, formado numa das universidades mais importantes para idiomas de Pequim.

Na Rússia, o berço da Revolução Comunista de 1917, a data está sendo comemorada com mais moderação, e o governo não se pronunciou. Uma pesquisa do instituto de opinião VTsIOM divulgada pelo jornal “Izvestia” mostra que 98% dos russos reconhecem o nome de Karl Marx. No entanto, não sabem exatamente quem ele foi. Mais da metade dos entrevistados, 54%, não leram os livros do filósofo alemão, e 66% deles não se lembram das suas ideias.

Embora os ensinamentos de Marx já não estejam na cabeça dos russos, seu nome ainda é familiar porque ele está representado em ruas e monumentos pelo país. Em Moscou, há uma imensa escultura em bronze na Praça dos Teatros, em frente ao Balé Bolshoi. Enquanto 37% sabem que ele é o autor de “O Capital”, 28% não sabem explicar por que ficou conhecido. A pesquisa aponta ainda que 23% o reconhecem como um comunista, um socialista e o fundador do marxismo. Mas 16% se lembram dele como um cientista, 13%, como político, e 7%, como a antecessor de Lenin e Stalin.

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