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Os novos russos da TV são mais que vilões

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WASHINGTON — Em 1955, o programa de TV “I Led 3 Lives”, sobre um agente do FBI infiltrado no partido comunista do subúrbio, fechou a segunda temporada com um episódio intitulado “Criança comunista”. O enredo do episódio era: uma menina de 12 anos — a criança comunista — passa a noite com a filha do agente do FBI. "Nunca subestime um comunista", avisam ao agente, "mesmo um bebê".

De fato.

A criança comunista imediatamente passa a influenciar a inocente menina suburbana, dizendo a ela “a verdade” sobre George Washington — que, como tantos outros americanos poderosos, machuca as pessoas pobres para enriquecer.

Estratégias de roteiro como estas eram bem comuns nos anos 1950, quando a Guerra Fria entrou num período particularmente arrepiante. Seriados de televisão, em preto e branco, pintaram os americanos contra os russos em termos também pretos e brancos.

Os russos: malvados, maquiavélicos, unidimensionais.

Os americanos: maravilhosos como uma torta de maçã.

Agora, décadas após o fim da Guerra Fria, os russos estão de volta como arquiinimigos no cenário mundial. Dois dos programas mais populares e aclamados da TV — “Homeland” e “The Americans” — têm russos como antagonistas, conspirando contra a democracia na tela paralelamente aos eventos reais.

Mas, desta vez, os russos são diferentes.

No caso de “The Americans”, sobre espiões russos inflitrados nos subúrbios como agentes de viagens que às vezes matam pessoas de maneiras muito criativas, o inimigo é representado de maneira mais tridimensional e quase amigável. Os espectadores são tentados a torcer pelos comunistas. Em “Homeland”, que nesta temporada espelhou a intromissão real dos russos na Presidência, o inimigo é implacável, porém com princípios e aflito.

— Há uma visão mais complexa e diferenciada dos russos, ou pelo menos desses personagens russos — explica o general aposentado Michael Hayden, ex-diretor da NSA e da CIA que auxilia roteiristas de “Homeland”. — Antes havia uma certeza teórica: marxismo é ruim, totalitarismo é ruim. Os russos não precisavam de muita explicação.

O novo retrato é impulsionado por duas forças que moldam a vida moderna:

Por um lado, a Rússia não é uma ameaça existencial para a humanidade.

— A Rússia tem sido uma das principais irritações por quatro ou cinco anos — diz Hayden. — Mas num nível de incômodo e chateação; não em um nível apocalíptico.

A outra força, de acordo com os críticos culturais, é a transformação da televisão de episódica para novelística.

Nos anos 1950 e 1960, os programas de televisão não tinham o arco narrativo de hoje. Os episódios tinham os mesmos personagens, mas os enredos não se desenvolveram ao longo do tempo. Era essencialmente a mesma história várias vezes, em formas ligeiramente diferentes. (Outros títulos de episódios de “I Led 3 Lives” incluem “Comunista morre”, “Camaradas confusos” e “Policial comunista”).

— Eles são vilões clássicos, mas não são personagens que somos encorajados a entender ou se identificar e nutrir empatia — diz Michael Kackman, professor de História da Televisão na Universidade de Notre Dame — onde estuda a cultura da Guerra Fria. — Seja "Mad Men" ou "Breaking Bad", essas séries constroem mundos grandes e complicados e, então, exploram profundamente as lutas emocionais de vários personagens. E assim você consegue simpatizar com eles.

“The americans”, de acordo com o próprio criador, teve a sorte de acontecer durante o momento atual da Rússia. Originalmente o programa foi concebido como um olhar nostálgico da vida de espiões russos reais que moraram nos Estados Unidos por décadas como nativos. Mas a série, agora na temporada final, assumiu um novo significado cultural em meio a investigações sobre a intromissão russa na recente campanha presidencial.

— Achamos que o programa não é sobre pessoas escolherem lados e preferirem os russos aos americanos — contou o co-criador Joe Weisberg ao “Observer”. — Nós pedimos às às pessoas que vejam como é ser um soldado atrás de linhas inimigas.

“Homeland” é uma história diferente.

A série estreou em 2011 e, por vários anos, a história se refletiu na ameaça terrorista sobre o mundo após o 11 de setembro. Os enredos são desenvolvidos através de um relacionamento estreito entre os roteiristas e a comunidade de inteligência. Antes de cada temporada, as estrelas Claire Danes e Mandy Patinkin viajam para Washington com a equipe de produção para o que eles chamam de “acampamento espião” — uma série de encontros com agentes da Inteligência que os situam das ameaças geopolíticas

— Estamos ficticiamente trabalhando no mesmo solo em que o mundo vive — explicou o co-criador Howard Gordon.

Na temporada passada, a história centrou-se na intromissão da Rússia na presidência, embora a adaptção tenha se empolgado quanto ao efeito dramático. (Um general é morto, a 25ª Emenda é invocada e assim por diante). Mas a série também retratou habilmente a "antiga Rússia" contra a disruptiva e agonizante "nova Rússia", cujos agentes estão mais engajados em hacks sofisticados e são motivados por mágoas de uma década atrás contra o Ocidente.

Em uma entrevista, Mandy Patinkin, que interpreta o mentor intelectual Saul Berenson, disse que forçou os roteiristas a tornar esta temporada não apenas um espelho distorcido da realidade, mas a alcançar, diz ele, aquilo que a realidade aparentemente não consegue.

— O espelho precisa de uma moral, uma lição que oferece algo em um sentido poético, artístico — disse ele. — Não me conte uma história que não tenha uma moral.

Patinkin, falando antes do final, aludiu a um momento como esse no último episódio. Após ele ir ao ar, parece que Patinkin se referia ao divisivo e politicamente incapaz presidente da série fazendo algo totalmente fora da personagem, mas com personalidade: renunciando.

— Estou extasiado com este episódio final e a premissa de uma possibilidade moral — afirmou Patinkin —Sobre o que você, como líder, pode considerar fazer para mudar o status quo.

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