WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta sexta-feira na Casa Branca a chanceler federal alemã, Angela Merkel, para um encontro focado em temas muito sensíveis, como o futuro do acordo nuclear assinado com o Irã, em 2015, as tensões comerciais entre o s países, e a Otan. Merkel havia feito uma visita a Trump em março de 2017, mas as evidentes diferenças de estilo entre os dois e a clara frieza no tratamento pessoal não despertaram muitas ilusões sobre a relação bilateral. No encontro desta sexta, o americano saudou a chanceler federal como “uma mulher extraordinária” e reiterou que os dois governos estão “trabalhando juntos em diferentes assuntos, incluindo comércio, a Otan e questões militares”.
Mas, para além das diferenças de estilo entre o explosivo Trump e a discreta Merkel, a agenda que os dois devem cumprir inclui pelo menos dois temas de extrema sensibilidade. Um deles é é o acordo assinado por Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, China e Rússia com o Irã para acabar com seu programa nuclear. Enquanto Trump demonstra sua clara inclinação a deixar o pacto, os demais signatários criticaram com mais ou menos intensidade o acordo, sem, no entanto, mostrar interesse em cancelá-lo.
— O acordo foi um primeiro passo para desacelerar e verificar o programa nuclear iraniano — afirmou Merkel, em uma coletiva de imprensa conjunta com Trump na Casa Branca. — Mas também consideramos, a partir da perspectiva da Alemanha, que não é suficiente.
Trump, por sua vez, voltou à carga contra o pacto.
— O Irã espalha o caos pelo Oriente Médio. É preciso garantir que o país não se beneficie da derrota dos terroristas do Estado Islâmico.
Esta semana, antes de voltar para casa depois de uma visita de três dias a Washington, Macron reconheceu que, apesar de seus esforços para dissuadir o presidente dos EUA, Trump continuava propenso a deixar o pacto. Nesta sexta-feira, em Bruxelas, o secretário de Estado, Mike Pompeo, deixou dúvidas sobre a continuidade dos EUA no acordo. Trump tem até 12 de maio para informar ao Congresso americano se acredita que o Irã cumpre ou não com o acordo, decisão da qual dependerá a permanência de Washington nesse entendimento multilateral.
Outro tema sensível se refere às crescentes tensões comerciais entre Washington e Berlim. Em março, o governo americano impôs pesadas tarifas à importação de aço e alumínio, mas adotou uma isenção temporária aos países da União Europeia (UE). Como fez a França durante a visita de Emmanuel Macron, esta semana Merkel tenta convencer Trump da conveniência de que essa isenção não seja somente temporária, mas permanente.
Na quinta-feira, um funcionário de alto escalão do governo alemão revelou que Berlim não tem ilusões sobre a isenção tributária, e que as tarifas alfandegárias estarão vigentes a partir da próxima terça-feira, 1º de maio. O principal assessor econômico de Trump, Larry Kudlow, por sua vez, disse que Washington poderia manter a isenção de taxas aos países da UE caso o bloco aceitasse fazer concessões, e mencionou em particular o mercado automotivo.
Também pode aparecer na agenda da visita a questão da contribuição alemã à Otan, já que Trump criticou que os países europeus não cumprem com sua responsabilidade financeira com essa aliança militar. Alguns aliados, como a Alemanha, são reticentes em cumprir o compromisso firmado em uma cúpula em Gales, em setembro de 2016, de dedicar 2% de seu PIB ao gasto militar para 2024. Na mesma reunião em Bruxelas, nesta sexta-feira, Pompeo disse ser “essencia” que os integrantes da Otan cumpram com seus compromissos relativos aos gastos de Defesa.
Ao ser questionado sobre a Alemanha fazer o suficiente com relação aos compromissos financeiros na Otan, Pompeo foi direto:
— Não. Deveriam alcançar os objetivos que acordaram.
A dirigente alemã desembarcou na quinta-feira em Washington e durante a noite foi vista discretamente com alguns auxiliares comendo um hambúrguer em um restaurante, distante de todo o protocolo.

