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Em Gaza, geração sem futuro vive encurralada entre Israel e Egito

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CIDADE DE GAZA — Eles são a geração do Hamas, a “geração perdida”, criados sob o punho firme de um movimento militante islamista. Sobreviveram a três guerras com Israel e veem a si mesmos como adultos indo a lugar nenhum. Na Cidade de Gaza, é difícil encontrar qualquer pessoa na casa dos 20 anos com um emprego de verdade e salário mensal. Dez anos após o Hamas tomar o controle de Gaza, a economia na faixa litorânea de dois milhões de habitantes foi destruída pela guerra e pelo bloqueio. Sobrevivem de criatividade e de restos, doados por governos estrangeiros. A cada dez pessoas, sete dependem de ajuda humanitária.

Muitos desses jovens usam drogas — e não drogas para experimentar o êxtase, mas pílulas utilizadas para tranquilizar animais, contrabandeadas do Sinai. Usam Tramadol e fumam haxixe para ficarem entorpecidos. O Hamas reagiu, intensificando as execuções de traficantes. Eles dizem que seus líderes os decepcionaram — e que os israelenses e os egípcios os estão esmagando.

Mas é muito difícil votar para derrubar o atual governo — porque não existem eleições.

— Para ser sincero, a gente não faz nada — diz Bilal Abusalah, 24, que estudou para ser enfermeiro. — Somos a geração que espera.

BICOS PARA SOBREVIVER

Ele e os amigos sobrevivem fazendo bicos. Como em cafés nas noites do Ramadã, em junho, ou na loja de sapatos de um tio. Conseguem US$ 10 por dia, mais algumas moedas para o café e cigarros. No mundo empoeirado e cinza de Gaza, jovens passam os dias em seus celulares. O desemprego nessa faixa etária chega a aproximadamente 60% — um dos mais altos do Oriente Médio e uma das piores taxas do mundo. O índice de alfabetização é de 96,8%, maior que na Cisjordânia.

No passado, a emigração era a saída, mas essa porta se fechou. Ainda assim, as universidades continuam a formar aos milhares, apesar de graduados serem justamente os com menos chances de achar um trabalho na região hoje em dia — principalmente se for mulher. Pesquisas mostram que metade da população deixaria o enclave se pudesse.

— Eu não acredito nisso — diz Mohammed Humaed, 24, que estudou cinema, mas trabalha duas vezes por semana na cafeteria de um campo de refugiados. — Todos os jovens sairiam daqui.

É uma geração que cresceu na retórica da versão de resistência ditada pelo Hamas: uma mensagem moralista de piedade e oposição a Israel, martelada nas mesquitas e nos acampamentos militares de verão para crianças e adolescentes, que recebem lições de primeiros socorros e sobre como lançar uma granada.

Economistas usam o termo “des-desenvolvimento”. Há dois anos, a ONU advertiu que Gaza poderia se tornar inabitável em 2020. Recentemente, disse ter sido otimista: a região pode entrar em colapso já no ano que vem.

— Se as fronteiras estivessem abertas, eu iria trabalhar em Israel. Todo mundo iria — diz Iyad Abu Heweila, formado em Educação Inglesa, mas sem trabalho.

Mohammad al-Rayyas, 25, diz que seu coração bate pelo Cairo, onde se formou em contabilidade. Nos dois anos em que está de volta a Gaza, sua vida parou.

— É mais que entediante. É muito devagar. É diferente aqui.

É um clichê chamar Gaza, com só 38 km de litoral, de prisão a céu aberto, mas muitos sentem-se como se os muros os estivessem encurralando. O enclave é cercado por uma cerca de perímetro israelense. Na fronteira egípcia, há uma ampla zona-tampão, como uma terra de ninguém. Pelo mar, pescadores de Gaza estão bloqueados por navios de guerra e proibidos de ultrapassar dez quilômetros.

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