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‘Fanatismo religioso é desculpa’, diz especialista em jihadismo

LONDRES - O jornalista palestino Abdel Bari Atwan, morador de Londres, estava no Parlamento na quarta-feira quando o ataque ocorreu. Editor do site de notícias árabe “Ray al-Youm” e autor de um livro sobre o Estado Islâmico (EI), ele participava de uma discussão sobre terrorismo. Atwan falou sobre a estratégia do grupo de causar máximo impacto sem precisar investir em operações complexas — um imenso desafio para a segurança das grandes metrópoles.

O ataque a Westminster tem o estilo e as impressões digitais do EI, como já vimos em Nice e em Berlim. Em geral, atacantes são recrutados pela internet e se tornam seguidores fiéis, mesmo não tendo necessariamente passado por treinamento militar. A especialidade do EI é fazer esse recrutamento fora da Síria, mas agora o grupo está sob pressão, perdendo terreno e por isso partiu para um plano B, ou seja, fazer esse tipo de ataque em locais muito simbólicos. Westminster é, ao mesmo tempo, uma joia da democracia e uma meca do turismo mundial. Atacaram dois aspectos da cultura ocidental. O porta-voz do EI, Abu Mohammad al-Adnani, conclamou os fanáticos a realizarem ataques como “lobos solitários”, usando veículos para matar inocentes, sem precisar de um grande investimento. O atacante aluga um carro, atropela e mata. Não há como identificar o perigo e impedir um atentado assim. Quando os terroristas precisam reunir um grande número de armas para ataques mais complexos, é mais fácil descobrir que um atentado está sendo planejado.

Não acho que tenha dificuldade, acho que há extremistas dispostos a se apresentar como voluntários. Mas acho que o grupo terrorista está mais preocupado em investir na sua própria proteção no campo de batalha do que na organização de atentados múltiplos, como aconteceu em Paris em 2015. Seu objetivo é espalhar o medo e conseguir visibilidade máxima. Eles não miram em nacionalidades específicas. Matam indiscriminadamente em locais significativos.

É muito complexo definir esses perfis de cidadãos radicalizados. Podem ter problemas mentais, mas também econômicos e sociais. É uma minoria entre as minorias, vivendo à margem da sociedade. Usam o fanatismo religioso como uma desculpa, são vulneráveis ao discurso do ódio. O atacante tinha 52 anos. Não estava mais na mira da polícia porque ataques suicidas são em geral realizados por jovens. Do ponto de vista da segurança, ele não se encaixava na lista de principais suspeitos.

A cidade está levando sua vida normal, as ruas estão cheias, todo mundo trabalhando, passeando, um sinal de que o terror não vence, não aterroriza os londrinos. A polícia em Londres não costuma andar armada. Durante o ataque, foi a primeira vez que vimos, dentro do Parlamento, policiais mascarados, armados até os dentes. Apesar da confusão, me senti protegido, eles foram muito profissionais, rápidos, eficientes. Foi tudo muito assustador, mas retomamos a vida no dia seguinte.

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