Início Mundo Farc se diz preocupada após Duque prometer corrigir acordo de paz
Mundo

Farc se diz preocupada após Duque prometer corrigir acordo de paz

Envie
Envie

BOGOTÁ — A promessa de Iván Duque, presidente eleito na Colômbia, de “fazer correções” no acordo de paz firmado em 2016 com as antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (a ex-guerrilha Farc, hoje transformada em partido político), deixou em alerta a nova sigla. Após o discurso de vitória, na noite de domingo, a Força Alternativa Revolucionária do Comum se colocou à disposição de um diálogo fim de discutir o acordo de paz. Já Gustavo Petro, candidato que acabou em segundo, com oito milhões votos, prometeu continuar a fazer oposição e impedir que Duque leve o país “de novo para a guerra”.

No discurso, no domingo, o futuro presidente anunciou que fará mudanças no pacto firmado em 2016, sem entrar em detalhes:

— A paz que desejamos reclama correções, para que as vítimas sejam o centro do processo e para garantirmos a verdade, a justiça, a reparação e a não-repetição — afirmou o jovem político, de 41 anos. — O que dissemos não é que vamos derrubar acordos, mas garantir que a paz seja para todos os colombianos.

Pupilo de Álvaro Uribe, grande crítico ao acordo, durante a campanha Duque chegou a prometer “rasgar o pacto”, mas mudou o tom ao longo dos meses, tentando atrair fotos do centro. No domingo, o ex-senador agradeceu o apoio de Uribe e da coalizão de direita, mas a ausência do mentor — que preferiu acompanhar a apuração dos resultados eleitorais em sua fazenda em Rionegro — pode indicar o início de um afastamento entre os dois.

— Com seu discurso de união, Duque mostra uma posição mais flexível que a de Uribe, mas ainda assim, seu posicionamento carrega uma mensagem de revisão — afirmou à AFP o analista Andrés Macías, da Universidade Externado.

Além disso, o futuro presidente deve encontrar dificuldades para rever o pacto.

— Duque precisaria buscar mudanças através da legislatura ou do Congresso, onde seu partido tem menos de 20% dos assentos — explicou Hasnain Malik, chefe de pesquisa de capital da Exotix Capital. — Além disso, a a Colômbia conta hoje com outros riscos para segurança, principalmente o Exército de Libertação Nacional (ELN) e os cartéis de drogas locais e mexicanos.

Duque prometeu, ainda, virar a página e garantiu que vai cumprir o “sonho” das base guerrilheiras de se desmobilizar e se incorporar à sociedade civil. Após uma campanha marcada por um debate muitas vezes raivoso sobre o tema, que se focou quase exclusivamente no desarmamento de ex-guerrilheiros, a polarização no país atingiu níveis recordes.

— Não existem represálias em minha mente e coração, trata-se de olhar para o futuro pelo bem de todos os colombianos — defendeu o conservador. — Não há espaço para as rupturas. Já não se trata de ‘duquismo’ ou de ‘petrismo’, mas de um país para todos. Vou oferecer todas, absolutamente todas, as minhas energias para unir este país. Temos de virar a página da polarização.

A nova legenda, no entanto, vê o pacto em risco. “É necessário que se imponha a sensatez; o que o país demanda é uma paz integral, que nos conduza à esperada reconciliação, baseada no bem-estar social, na verdade, na justiça e na reparação integral às vítimas do conflito e a garantia de não repetição. Burlar este propósito não pode ser plano de governo”, afirmou a ex-guerrilha, em comunicado lido pelo líder Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, que chegou a ser candidato.

Na nota, divulgada nesta segunda-feira, a Farc também pediu unidade dos grupos que foram derrotados na eleição. “Nunca, como agora, se faz mais urgente a unidade de todos os setores que cremos na possibilidade de um futuro distinto. O resultado eleitoral da Colômbia Humana (coligação de Gustavo Petro) mostra que sim, é possível.”

Petro, por sua vez, indicou um sentimento de dever cumprido — ele conseguiu o maior número de eleitores de um candidato presidencial de esquerda na história do país. “Qual derrota? Oito milhões de colombianos e colombianas livres de pé. Aqui não há derrota”, escreveu no Twitter o ex-guerrilheiro do M-19 e ex-prefeito de Bogotá.

Siga-nos no

Google News