LONDRES - Diante da revisão para ao menos 58 mortos no incêndio de quarta-feira na londrina Grenfell Tower, além de uma quantidade de desaparecidos estimada pela imprensa em 70 pessoas, a premier Theresa May foi forçada a manter foco exclusivo em rebater as duras críticas e protestos pela fracassada prevenção do episódio e sua reação pessoal ao caso. Com promessas de reconstrução, a chefe de governo britânica admitiu que a resposta financeira aos afetados pelo incêndio foi insuficiente e se pôs à disposição para atender às famílias e aos moradores com os recursos necessários. Mas nem isto foi suficiente para amansar as críticas que sofreu por ter aparentemente ignorado os afetados em sua primeira visita ao local da tragédia, mas também pelo impasse político que o país vive nas últimas semanas.
May se reuniu no sábado na sede do governo, em Downing Street, por duas horas e meia com 15 vítimas, moradores, voluntários e representantes da comunidade local. Ao final da reunião, divulgou um comunicado assegurando ter entendido as preocupações, e no qual confirmou uma investigação completa sobre o caso e o desbloqueio com urgência de 5 milhões de libras (R$ 21 milhões) para abastecimentos emergenciais, alimentos e roupas.
“A resposta dos serviços de emergência, do Serviço Nacional de Saúde e da comunidade foi heroica”, destacou May na nota. “Mas, francamente, o apoio às famílias que precisavam de ajuda ou de informações básicas nas horas iniciais após este desastre deplorável não foi boa o suficiente”, ressaltou, anunciando o envio de mais funcionários ao local da tragédia para “fazer todo o possível”.
Do lado de fora do número 10 da Downing Street, uma manifestação com mais de mil pessoas tinha a premier na mira — por diferentes motivos, entre eles o incêndio na Grenfell Tower, mas também a proposta de May de formar coalizão com um pequeno partido conservador norte-irlandês para alcançar maioria no Parlamento após seu mau desempenho na eleição geral da semana anterior.
— Vergonha! Desgraça! — gritavam manifestantes com cartazes pedindo a saída da chefe de governo, responsável por convocar uma rápida eleição fracassada que fez com que seu Partido Conservador perdesse a maioria absoluta que detinha no Parlamento.
Cerca de 600 pessoas viviam no prédio, de 120 apartamentos. No último balanço da imprensa britânica, no sábado, havia até 70 desaparecidos. Oficialmente, 58 pessoas morreram, mas as autoridades admitem o aumento deste número.
Frente às críticas sofridas nos últimos dias pelas falhas de segurança que levaram ao incêndio e o pouco apoio aos sobreviventes, May adiou conversas com os norte-irlandeses e não deu sinais de pôr a formação de governo no topo de sua agenda.
Seu primeiro secretário de Estado (espécie de vice-premier), o deputado Damian Green, ignorou questionamentos sobre as eleições e sobre o fato que May evitou manter contato público com moradores da Grenfell Tower quando visitou o local pela primeira vez.
— A primeira-ministra está abalada com o que aconteceu — afirmou Green. — Estamos todos desesperadamente tristes, bravos, mas é claro que nenhum de nós está tão bravo quanto aqueles que foram diretamente afetados.
Alvo de críticas de rivais políticos, ela vem sendo questionada agora por antigos aliados tanto pela aposta fracassada nas eleições legislativas adiantadas — pouco antes do início das negociações para a saída britânica da União Europeia (UE) — quanto pela reação ao incêndio. No “The Times”, o ex-deputado conservador Matthew Parris disse que a resposta à tragédia mostrou que May “não tem condições de exercer o cargo”.
“Na ressaca de uma eleição geral que tirou de nossa primeira-ministra sua autoridade na véspera das negociações com a UE, nem o senso comum e nem as provas concretas sugerem que ela possa restaurar a confiança do público. Esta premier não é viável”, criticou Parris em coluna no diário “The Times”.
No meio do clima de críticas às autoridades políticas, a rainha Elizabeth II pediu união nacional e lamentou a sequência de tragédias que vem abalando o país, em referência velada não só ao incêndio, mas aos ataques terroristas das últimas semanas em Manchester e Londres.
“Este é, tradicionalmente, um dia de festa”, disse a monarca numa mensagem em que usou um tom pouco habitual, coincidindo com a comemoração de seu 91º aniversário. “Mas este ano é difícil não sentir o sombrio humor nacional.”
A monarca pediu que os britânicos não desmoronem “frente à sucessão de desgraças terríveis dos últimos meses”.
“Quando é posto à prova, o Reino Unido se mostra determinado frente à adversidade”, pontuou a rainha.

