Candidatas por diferentes partidos, a ex-guerilheira Victoria Sandino, da Força Alternativa Revolucionária do Comum, e Katherine Agurirre, postulante pela Aliança Verde, têm muito em comum. Além de uma plataforma voltada para as questões de gêneros, as duas — que tentam uma vaga ao Senado e à Câmara, respectivamente — concordam que apesar dos avanços nos últimos anos, ainda há muito a ser feito no país.
Acredito que sim, a Colômbia ainda é um país muito machista, embora nos últimos 20 anos os debates sobre os direitos das mulheres e os setores do LGTBI tenham feito avanços impressionantes.
Com o equilíbrio que temos na representação das mulheres no Congresso, é necessário que os temas especificamente de gênero sejam tratados por elas como uma prioridade em suas agendas. É muito difícil que a representação efetiva de equidade de mulheres no Congresso se realize nestas eleições, mas ainda que sejamos poucas devemos dar ênfase nos temas de gênero e acabar com as lacunas existentes. A Colômbia está avançando na proteção de direitos das mulheres, mas ainda falta acelerar passos para alcançar à paridade. E precisaremos de muitos anos para reduzir essa lacuna: 16 para atingir 48% de representação na Câmara; e 20 anos para chegar a 51% do Senado. Em cargos locais, precisamos de uma média de 152 anos para conseguir representação nos conselhos, assembleias e e prefeituras.
Nós, como partido, pensamos fundamentalmente em cinco pontos em relação à legislação feminina: 1. Reformar e atualizar a Lei das Mulheres Rurais, que já existe, mas não impacta as mulheres em suas vidas diárias. 2. A criação e o financiamento completo de um sistema nacional de cuidados que permita às mulheres dedicadas ao trabalho doméstico terem oportunidades mais amplas para seu desenvolvimento profissional e político. 3. Uma justiça com um enfoque de gênero que previna e atenda às particularidades das mulheres mais pobres, que se veem forçadas a cometer pequenos delitos, mas são punidas desproporcionalmente. 4. Expandir os direitos de acesso à saúde e participação política dos setores do LGTBI e 5. Ampliar a agenda de direitos sexuais e reprodutivos, de modo que a política de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada seja realmente bem-sucedida.
Minha plataforma está focada em garantir que a vida seja sagrada: na Colômbia, 98% dos casos de mortes relacionadas à gravidez são evitáveis. A taxa é de 97,9 casos para cada cem mil nascimentos, onde 75,4% pertencem a mulheres de alguma minoria. Outro aspecto importante, é que uma a cada cinco colombianas menores de 19 anos engravidou e a taxa de gravidez na adolescência é de 17,4%, Dessas, 52,3% estão abaixo da linha da pobreza e 41,8% no menor nível educacional. Outra meta é fazer debates e leis para que as mulheres tenham acesso real ao mercado de trabalho. Entre as mulheres colombianas, o desemprego continua sendo maior: são 12,8% frente a 8,8% dos homens. Entre as empregadas, ainda que tenham maior nível educacional, ganham 7% menos que seus pares — no caso das autônomas o salário é 35,8% inferior. Na educação, as mulheres têm uma taxa mais alta em níveis de formação, exceto em doutorado, mas isso não se reflete nos salários.
Estamos avançando, é um longo caminho a percorrer, mas aos poucos, na Colômbia as mulheres muito fortes na política vamos nos posicionado. Não é fácil, porque as mulheres são exigidas em dobro: devemos ser boas política e academicamente, mas também cumprir com padrões estabelecidos de gênero. Isto é mais fácil de quebrar em outros países, onde, em geral, toda a população, mas em particular as mulheres, têm mais acesso à educação pública de qualidade. Na Colômbia, o neoliberalismo causou muitos danos ao sistema educacional e isso nos coloca em uma diferença substancial em todos os aspectos políticos em comparação com outros países do continente.
De fato, há investigações de ONGs como SISMA, e a própria Missão de Observação Eleitoral (MOE), que revelam que em média são necessários 78 anos para se atingir esses cargos de eleição popular de maneira equitativa. Tanto é assim, que a sub representação política das mulheres ainda afeta a democracia: elas representam 52% da sociedade e só conseguem 16% desses cargos. Somando todas as lacunas em outros cargos, a Colômbia precisará de basicamente um século para conseguir representação necessária de gênero.
Para mim foi muito difícil que o acordo não tenha sido legitimado pelos colombianos, por confusões e publicidade mentirosa pela inclusão de uma abordagem de gênero. Sabemos que o conflito historicamente afetou as mulheres na violação dos direitos humanos em atos de ameaças, tortura, escravidão, estupro e abuso sexual e é por isso que celebro a conquista da paz todos os dias. A paz para mim deve agora ser aquela que melhore a convivência e a reconciliação dos cidadãos para gerar respeito pelas vidas das mulheres. Perdemos, no total, 3.307 vidas de mulheres por causas externas. 39.344 das mulheres sofreram violência interpessoal, 20.072 sofreram crime sexual, houve 5.507 violações de meninas, e 42.592 casos de violência doméstica, com 134.578 lesões não fatais.
Dentro do novo partido, é difícil dar uma cifra, especialmente porque não só as ex-combatentes estão lá, mas agora temos mais e mais mulheres comuns que se juntaram à Força Alternativa Revolucionária do Comum, porque sabem que é um partido em que todas têm um lugar e podem ver seus novos interesses representados. No conselho político nacional, o nosso órgão governante, somos 30% de mulheres e não há espaço onde a nossa militância não seja de pelo menos 50% de homens e 50% de mulheres.

