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Novo herdeiro traz sinais de mudanças na Arábia Saudita

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RIAD - Numa medida inesperada, o rei Salman bin Abdulaziz removeu seu sobrinho Mohammed bin Nayef do posto de príncipe herdeiro do trono saudita, substituindo-o por seu filho Mohammed bin Salman, de 31 anos, que se mantém como ministro da Defesa do país. A decisão foi encarada como uma tentativa de modernizar a linha sucessória da Arábia Saudita, num momento em que o país busca revitalizar sua longa relação com os Estados Unidos, se vê envolvido numa disputa pelo controle do Oriente Médio com o Irã, e lidera nações do Golfo Pérsico e do Norte da África numa campanha de isolamento do Qatar.

Elogiado por ter conseguido sufocar uma campanha de atentados da al-Qaeda no país, e estabelecido fortes laços com Washington, Bin Nayef — que também deixa o Ministério do Interior — jurou aliança a seu sucessor numa cerimônia transmitida pela TV estatal saudita. Recebeu de Bin Salman um cumprimento e a promessa de que “nunca abrirá mão de seus conselhos”.

— O príncipe é visto como o novo rosto público da Arábia Saudita: ele é jovem, carismático e ambicioso — diz Fawaz Gerges, professor de Relações Internacionais da London School of Economics. — Ele tem apelo para muitos jovens sauditas que o veem como uma imagem de si mesmos. Se viajar pelo reino, verá seu rosto em toda parte. Com a decisão, não há mais ambiguidade sobre quem dá as ordens.

Nomes que trabalharam ao lado do novo príncipe herdeiro o descrevem com um trabalhador incansável e atento aos mínimos detalhes, afeito à tecnologia e disposto a implementar rapidamente mudanças que, muitas vezes, causaram turbulências entre os conservadores do reino.

O jovem herdeiro do trono já se envolveu em polêmicas por seus gostos extravagantes, como quando comprou impulsivamente um iate de US$ 549 milhões (R$ 1,83 bilhão) durante férias no Sul da França, ou quando ofereceu publicamente US$ 10 milhões (cerca de R$ 33 milhões) ao rapper Kanye West por uma noite com sua mulher, Kim Kardashian.

Bin Salman, no entanto, conseguiu se esquivar das críticas mantendo-se fiel às suas raízes. O novo príncipe herdeiro foi inteiramente educado no país, algo raro na elite saudita, usa vestimentas tradicionais e conduz suas entrevistas em árabe. Quando era vice-príncipe herdeiro, ganhou popularidade entre os jovens do país por promover o ambicioso programa “Visão Saudita 2030” como ministro da Defesa e chefe da petrolífera estatal Aramco. No entanto, também colecionou críticas por colocar à venda, pela primeira vez, ações da empresa, uma medida que pode enfraquecer a economia do reino.

Nos últimos meses, Bin Salman visitou diversos países, e se encontrou com o presidente Donald Trump, na Casa Branca, em março, preparando o cenário para a visita do líder americano à Arábia Saudita, em sua primeira viagem internacional desde a chegada à Presidência. Ele também defendeu que o país lidere uma aliança militar contra o Irã no Oriente Médio, foi o principal articulador da intervenção saudita no conflito no Iêmen (contra as milícias houthi, apoiadas pelo Irã) e também convenceu nações vizinhas a isolarem diplomaticamente o Qatar, criando um impasse que os Estados Unidos tentam resolver.

No mês passado, durante um pronunciamento na TV saudita, afirmou que o objetivo do Irã era controlar o mundo islâmico, afirmou que diálogos com xiitas eram “impossíveis” e prometeu “levar a batalha a Teerã”.

— A abordagem decisiva em relação ao Irã e seu papel no boicote ao Qatar podem ter antecipado sua ascensão, que veio muito antes do que se esperava — afirma Gerges.

“MBS”, como é conhecido no país, também tem planos de mudar a política doméstica. Em seu programa, ele cita a necessidade de reduzir a dependência econômica do petróleo e modernizar o país. Parte de sua popularidade com os jovens vem de suas aspirações de abrir o país ao entretenimento e ao investimento estrangeiro e trazer de volta os padrões sociais estabelecidos antes das rígidas leis religiosas aprovadas na década de 1980.

Para Saeed Wahabi, especialista em política saudita radicado nos Emirados Árabes, as leis que proíbem mulheres de dirigirem automóveis e trabalharem em certas áreas da sociedade podem estar com os dias contados.

— Espero um grande impulso doméstico. Ele terá 100% de liberdade para fazer o que diz nas entrevistas — afirma Wahabi. — Mulheres podem começar a dirigir nos próximos meses.

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