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De mãos atadas: oposição sofre com falta de rumo claro na Venezuela

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BUENOS AIRES - Já são mais de 80 dias de protestos, que deixaram como saldo 3.264 detenções (deste total, 370 pessoas foram submetidas a tribunais militares) e 74 mortes. Depois de quase três meses de luta, a oposição venezuelana continua nas ruas, apesar do desgaste evidente entre seus seguidores, com as mesmas bandeiras levantadas quando decidiu, no final de março passado, iniciar uma cruzada decisiva contra o governo Nicolás Maduro: saída do presidente, convocatória de eleições gerais, liberação de presos políticos, restituição da ordem constitucional e criação de um canal humanitário, entre outras. As metas estão claras, mas a Mesa de Unidade Democrática (MUD), uma aliança heterogênea na qual convivem diferentes visões sobre a estratégia que deve ser adotada para enfrentar o Palácio Miraflores, ainda não conseguiu encontrar um rumo. Sua incapacidade abriu espaço para lideranças opositoras dentro do chavismo, como a da procuradora-geral da República, Luisa Ortega Díaz, hoje figura central da política venezuelana.

E os debates internos da MUD preocupam analistas locais. O último documento apresentado pela oposição, na noite da última terça-feira, defendeu a desobediência civil, mas não explicou como fazer isso e, muito menos, como isto ajudaria a alcançar os objetivos traçados. A sensação predominante no país é a de que os dirigentes opositores não sabem como ir além das ruas. As limitações são grandes, o governo controla todos os poderes (com exceção do Ministério Público), ignora advertências da comunidade internacional e se mantém firme graças ao respaldo da cúpula militar.

— Estamos vivendo um ambiente confuso, no qual cada partido da MUD (são cerca de 20) está tentando impor sua opinião. O resultado é uma oposição que não está unida em função de um único rumo — explicou o analista Oswaldo Ramírez Colina, diretor da ORC Consultores.

Segundo ele, a maioria dos opositores aposta em continuar nas ruas, na tentativa de quebrar a aliança civil e militar que ainda sustenta Maduro.

— Mas também temos aqueles que pensam numa negociação com o governo e numa transição até 2018 — lembrou.

Se a crise venezuelana fosse um jogo de futebol, disse o analista, ninguém estaria ganhando. A oposição não consegue encontrar a fórmula para terminar rapidamente com o governo Maduro e o presidente, por sua vez, se mantém num frágil equilíbrio, hoje ameaçado pelos questionamentos dos próprios chavistas. Sua proposta de realizar uma Assembleia Constituinte foi rechaçada por ex-ministros, jornalistas até agora alinhados com o governo e funcionários de peso como Ortega Díaz. O drama da Venezuela é justamente esse: ter um governo cambaleante e uma oposição que, por momentos, parece desnorteada.

Nessa busca para rebater as críticas e se equilibrar no poder, Maduro realizou na quarta-feira mais uma parte de sua reforma ministerial, substituindo a chanceler Delcy Rodríguez, que nos últimos dias confrontou o México na OEA. Ela disputará uma vaga na Constituinte e em seu lugar assume Samuel Moncada, que era vice-chanceler. O presidente trocou ainda o titular da pasta do Trabalho.

— O objetivo comum que une a oposição é sair da ditadura chavista. No caminho para cumprir esse objetivo sempre existiram diferenças — apontou o analista Julio Márquez, que vê uma oposição unida nas ruas, mas com divergências provocam ruído num contexto de emergência nacional.

Emergência não é uma palavra exagerada, tratando-se da Venezuela de hoje. A própria procuradora-geral assegurou quarta-feira, em entrevista ao jornalista Nelson Bocaranda, que o país “corre o maior perigo de sua história republicana”:

— Vivemos um panorama obscuro, o Estado foi dissolvido — enfatizou Ortega Díaz, que enfrenta uma investigação no Tribunal Supremo de Justiça (TSJ).

O cenário dramático é compartilhado pelas principais lideranças opositoras. Ao anunciar novas iniciativas, o presidente da Assembleia Nacional (AN), Julio Borges, disse estar “numa fase decisiva de luta”:

— Por isso convocamos a todos os setores sociais e políticos, para conseguir a restituição da ordem constitucional. Usaremos todos os mecanismos constitucionais para mudar o governo.

Um dos próximos passos da MUD será aprovar uma emenda constitucional que reduza o período do mandato presidencial. Na prática, mais uma vez, a decisão não terá consequências. Mas permitirá à oposição questionar a legitimidade do governo Maduro, dentro e fora do país.

— O roteiro apresentado pela MUD parece continuar numa espécie de limbo, sem indicar como serão suas ações, como será este ultimato ao governo. O que se espera é uma emenda constitucional, a nomeação de novos magistrados no TSJ e novos reitores no Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Provavelmente, a sociedade esperava algo mais contundente — assegurou o diretor da ORC.

Colina observa uma discussão central na coalizão opositora, entre os que querem mais protestos nas ruas e os que preferem apostar em uma vitória nas eleições regionais de dezembro.

— A ameaça neste momento é que comece a crescer um clima de desânimo e falta de credibilidade dos partidos políticos — disse.

A falta de resultados na OEA favorece este clima de desânimo entre os opositores, que acreditaram que o organismo representava uma esperança de salvação da pátria.

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