BUENOS AIRES - A decisão da Mesa de Unidade Democrática (MUD) de impulsionar uma agenda de protestos nas ruas das principais cidades venezuelanas, para exigir a realização de eleições gerais este ano, colocou ONGs de defesa dos direitos humanos do país em alerta. A Foro Penal, uma das mais importantes e ativas, acredita que as manifestações trarão mais repressão. Somente no ano passado, informou recentemente a ONG, foram registradas 2.732 detenções por motivos políticos. Entre janeiro de 2014 e dezembro do ano passado, o número de prisões políticas alcançou 6.831.
Na quarta-feira, 16 estudantes que militam no partido opositor Primeiro Justiça foram detidos no estado de Sucre, enquanto realizavam uma marcha pacífica para pedir a convocação de eleições. De acordo com a Foro Penal, todos foram libertados depois de algumas horas, mas deverão responder a um processo judicial.
O secretário geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, pediu ao Parlamento Europeu que interceda a favor dos presos políticos venezuelanos. Apesar dos anúncios feitos no final do ano passado, apenas dois estudantes recuperaram a liberdade — e foram obrigados a abandonar o país — além do ex-candidato presidencial Manuel Rosales. Para Gonzalo Himiob, um dos diretores da Foro Penal, a experiência recente mostra que o crescimento dos protestos leva a mais repressão.
— Maduro criou uma espécie de porta giratória: saem alguns e entram muitos outros — denunciou ao GLOBO, antevendo que as prisões vão continuar e a situação só deve piorar. — A crise econômica e social é gravíssima e vai dar impulso aos protestos. Temos um panorama muito difícil pela frente.
Os dados divulgados pela Foro Penal são alarmantes: atualmente existem na Venezuela 107 presos políticos, dos quais 35 já foram condenados por um tribunal. Entre 2013 e 2016, a ONG contabilizou 429 presos políticos, dos quais muito já foram libertados, embora continuem impedidos de sair do país. Nas marchas de anteontem, ocorreram incidentes em estados como Táchira, Carabobo e Zulia.
— Manifestantes foram reprimidos com gás lacrimogêneo. A decisão de reprimir está vigente — lamentou Himiob. — Desde que o diálogo começou, foram libertadas 42 pessoas e presas outras 55. Não vemos uma real vontade de acabar com a repressão.
Segundo a Anistia Internacional, as detenções de líderes e membros de partidos de oposição no país mostram um padrão sistemático de abusos “contra os que se atrevem a expressão uma opinião contrária a do governo”.
A oposição venezuelana também acusou do governo Maduro de soltar e prender adversários em série. A denúncia foi feita por Mitzy Ledezma, mulher do ex-prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, sob regime de prisão domiciliar, na marcha da última segunda-feira.
— Esta porta giratória mostra que o governo não tem intenção de ceder. Já são mais de cem presos políticos.
No que diz respeito à corrupção, a Venezuela continua sendo o pior país da América Latina, de acordo com o ranking publicado ontem pela ONG Transparência Internacional. Na 166ª colocação numa lista com 176 países — atrás de Haiti, Nicarágua e Honduras — o país manteve a posição do ano anterior.

