BUENOS AIRES — As primárias para as eleições regionais do próximo dia 15 de outubro, realizadas domingo passado, evidenciaram até onde chega a crise que enfrenta a oposição venezuelana. Após mais de quatro meses de luta diária em ruas do país, a instalação da polêmica Assembleia Nacional Constituinte (ANC), em julho passado, derrubou as esperanças de um amplo setor da população que acreditou que a oposição conseguiria derrotar o governo de Nicolás Maduro e deixou os partidos que integram a Mesa de Unidade Democrática (MUD) desnorteados, divididos e sem estratégia para os próximos tempos.
Analistas locais ouvidos pelo GLOBO admitiram que o momento é dos mais difíceis já enfrentados pela MUD, sobretudo por partidos mais jovens como Primeiro Justiça (PJ) e Vontade Popular (VP), que apostaram tudo na força das ruas e, hoje, não sabem como se reconectar com os milhões de venezuelanos que arriscaram a vida em marchas violentamente reprimidas pelas forças de segurança nacionais e paramilitares.
Estima-se que menos de um milhão de eleitores venezuelanos — de um total de 19 milhões — participaram das primárias opositoras. A escassa mobilização eleitoral favoreceu o partido mais tradicional da MUD, o Ação Democrática (AD), que terá, ao menos, oito candidatos em outubro. Já o VP, liderado por Leopoldo López, disputará apenas dois dos 23 governos estaduais, e o PJ, do atual governador de Miranda, Henrique Capriles, terá três candidatos na disputa.
— A oposição ainda não conseguiu se reconectar emocionalmente com seus seguidores. É um problema central neste momento — disse o analista Oswaldo Ramírez Colina, da ORC Consultores.
Em meio a um cenário nebuloso, o governo da França anunciou a retomada de negociações entre o Palácio de Miraflores e a MUD, na República Dominicana. Ontem a aliança opositora informou em nota o envio de uma delegação para se reunir com o presidente dominicano Danilo Medina, mas esclareceu que a medida não representa o início de um diálogo. Maduro também disse que vai mandar uma equipe.
“Decidiram enviar uma delegação para se reunir com o presidente Medina, na qual serão apresentados os objetivos da luta democrática nacional”, explicou a coalizão, sem indicar data para a reunião.
Horas antes, o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, informara que o encontro seria realizado no país caribenho, sem dar mais detalhes. Em Caracas, a notícia surpreendeu analistas e opositores.
— Nas últimas semanas, o governo aprofundou a perseguição. Fala-se em julgamentos por traição à pátria na ANC e na prisão de Julio Borges (presidente da Assembleia Nacional, que volta hoje de uma viagem à Europa). Não faz sentido esse diálogo, neste momento — opinou Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV).
Para ele, a oposição venezuelana está vivendo “um ciclo doloroso".
— Hoje as pessoas estão cansadas e mais preocupadas em sobreviver. Muita gente sequer sabia que seriam realizadas as primárias. O resultado foi uma fotografia de como está hoje o grupo opositor, deprimido e desiludido — lamentou Romero.
Nesse ambiente, o único partido que conseguiu um apoio mais significativo de seus seguidores foi o tradicional AD, presente em todo o país. Seus militantes são mais organizados, o partido tem uma estrutura de décadas que chega a setores rurais e, segundo analistas, tem mais capacidade de reagir em momentos de apatia como o que vive atualmente a Venezuela.
— A oposição, em termos gerais, está nocauteada — concluiu Romero.
Na visão de Ramírez Colina, um dos maiores desafios da MUD é ter estratégia para garantir que as eleições regionais sejam realizadas “em condições claras”:
— As regionais provocaram grande debate interno e, para muitos seguidores da MUD, é inadmissível participar de uma eleição quando a ANC tornou-se um suprapoder que proíbe candidaturas e persegue dirigentes. A oposição precisa encontrar a maneira de garantir mais transparência e dar mais segurança aos eleitores — afirmou.
E a pressão externa é cada vez maior para que Maduro dê sinais de democratização. Depois das sanções econômicas e financeiras aplicadas pelos Estados Unidos, em Caracas especula-se sobre ações similares por parte da União Europeia. Ontem, o comissário europeu de Ajuda Humanitária, Chrystos Stylianides, disse que a UE trabalha por uma solução pacífica na Venezuela, “mas não exclui nenhuma opção”.
— Somos cientes de que o tempo para comprometer-se seriamente com os esforços (democráticos) está se esgotando rapidamente — disse o comissário europeu.
Já o secretário-adjunto de Estado dos EUA, William Brownfield, admitiu que seu país não acredita mais numa “solução democrática para a crise política e econômica da Venezuela”.

