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Para China e Trump, novas sanções a Kim não bastam

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PEQUIM — Por mais apoio que a decisão unânime do Conselho de Segurança da ONU tenha arrebanhado mundo afora, especialistas não escondem que o novo pacote de sanções contra a Coreia do Norte pode ser apenas mais um, incapaz de convencer o regime de Kim Jong-un a desistir do programa de armamentos nucleares. A jornalistas, o porta-voz do governo garantiu o compromisso da China, hoje o maior parceiro comercial da Coreia do Norte e último aliado, com a implementação das restrições. Mas destacou o consenso internacional em torno de uma saída pacífica para a crise e a necessidade de se criarem os caminhos para o diálogo.

Ele lembrou a ideia em que Pequim vem insistindo da chamada “suspensão por suspensão”: norte-coreanos suspendem seu programa, assim como americanos e sul-coreanos desistem de seu escudo antimísseis conjunto.

— A situação é complexa, sensível e severa — reforçou o porta-voz, ao pedir que todas as partes “esfriem a cabeça” para buscar uma solução.

O anteprojeto da resolução apresentado pelos EUA era ainda mais duro do que o aprovado, que acabou proibindo apenas as exportações têxteis da Coreia do Norte, mas mantendo as importações de petróleo nos níveis dos últimos 12 meses — Washington queria um embargo total, mas só contou com apoio de China e Rússia depois que diminuiu as exigências. Em editorial, o jornal “Global Times”, um dos porta-vozes do governo chinês para o público estrangeiro, afirma que a comunidade internacional não se dá conta da importância de EUA e Coreia do Sul “se esforçarem mais para abrandar a ansiedade da Coreia do Norte com segurança”. E destaca que isso “é tão importante quanto Pyongyang abandonar o programa nuclear”. O jornal diz que, apesar das duras sanções, é preciso que as potências ajudem a Coreia do Norte a se reintegrar à comunidade internacional.

O apoio da China à Coreia do Norte nos últimos anos não significa que os dois países sejam grandes aliados. O regime norte-coreano vinha sendo usado por Pequim como uma espécie de zona tampão para garantir o equilíbrio na península onde americanos apoiam a Coreia do Sul e realizam testes militares conjuntos. Mas os 79 testes de mísseis balísticos e seis nucleares de Kim Jong-un desgastaram de vez a paciência dos chineses. E a postura chinesa desagradou ao regime norte-coreano. Os curto-circuitos entre os dois países começaram, na verdade, em 2006, quando Pequim apoiou resolução do Conselho de Segurança da ONU que impunha sanções ao regime, à época sob a batuta de Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un.

O teste nuclear realizado por Kim Jong-un no domingo retrasado foi comemorado com festas em diversos pontos da Coreia do Norte nos últimos dias, como contaram ao GLOBO observadores. Considerado uma grande vitória pelo regime e, por tabela, pela população, foi visto com assombro pelo resto do mundo. O lançamento feito a poucas horas do discurso do presidente Xi Jinping na abertura do Fórum Empresarial do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) — um dia antes da cúpula que reuniu os líderes dos cinco países da qual era o anfitrião — despertou nos chineses o sentimento que mais abominam: o diu lian, que, traduzido para o português, significa a “perda da face”. Trata-se de um misto de humilhação pública e constrangimento. Desta vez, a provocação atingiria em cheio o aliado derradeiro de Pyongyang.

— Fica difícil “manter a face”. A Coreia do Norte desafiou a China abertamente durante a cúpula — disse ao GLOBO Zhao Tong, especialista do Programa de Política Nuclear do Centro Carnegie-Tsinghua.

Os chineses são responsáveis por 90% do comércio da Coreia do Norte. Está em Pequim a garantia da subsistência do regime, há uma década sob duras sanções. Diante da insistência de Pyongyang e da falta de alternativas para conter o seu programa nuclear e de mísseis, os países adotaram a nova resolução, a terceira em cinco semanas. Agora, a Coreia do Norte está impedida de exportar 90% do que vendia para o mundo. Apesar de sufocado com as limitações impostas pelo Ocidente, o país chegou a crescer 3,9% em 2016, um recorde em 17 anos.

Os chineses vivem a contradição de cortar, mas sem deixar de estender a mão. Não para proteger o líder vizinho, e sim evitar riscos.

— Não pode virar uma ameaça nuclear para a China. Um conflito entre a Coreia do Norte e os EUA traria muitos riscos para a China, como o uso de armamentos nucleares. Seria muito sério. A China não tem muitas opções agora para lidar com o país — reconheceu Zhao.

Em editorial, o jornal “China Daily”, outra voz do governo, diz que a ineficácia das sanções “indica o que mundo ainda não percebeu: até que os norte-coreanos tenham certeza de que não há ameaça à sua segurança, vão continuar com tentativas, muitas vezes desesperadas, de manter armas nucleares como proteção contra os EUA”. Analistas chineses dizem que sanções mais drásticas só aumentarão a tensão: Kim não estaria disposto a abrir mão do seu arsenal.

A China, que vinha mediando o diálogo entre a Coreia do Norte e o resto do mundo, culpa os americanos em boa medida pelo aumento da tensão. Pequim é terminantemente contra os exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul. Ontem, Trump minimizou o impacto das novas sanções e disse não saber se elas terão “qualquer impacto”, acrescentando que elas empalidecem em comparação com “o que terá de acontecer com a Coreia do Norte no fim das contas”.

Por sua vez, o regime de Kim ameaçou os EUA com “sua maior dor” após as novas sanções.

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