HARARE - Em 2008, enquanto disputava a eleição presidencial do Zimbábue, Robert Mugabe afirmou que apenas o Deus que o colocara no poder seria capaz de retirá-lo da Presidência. Nove anos depois, na tarde de terça-feira, o presidente do Parlamento, Jacob Mudenda, leu uma carta na qual o presidente anunciava que estava deixando o cargo imediatamente, “pelo bem-estar da população do Zimbábue e a necessidade de uma transferência pacífica de poder”. No entanto, apesar das palavras de Mugabe, e da comemoração nas ruas da capital, Harare, o futuro do país ainda é incerto. O nome mais cotado para assumir a Presidência é Emmerson Mnangagwa, que substituiu Mugabe na liderança da União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu-PF, na sigla em inglês), e cuja demissão da Vice-Presidência no início do mês criou o cenário que levou à saída do homem que comandou a nação africana com mão de ferro por 37 anos.
A renúncia deixa o país numa encruzilhada, com as Forças Armadas no controle, mas com um amplo espectro de grupos políticos esperando mudanças. Mnangagwa, um aliado de longa data de Mugabe, pode não trazer o sopro de mudança que muitos esperam com a saída do ditador — aos 75 anos, esteve a seu lado durante o regime autoritário instaurado após o líder da luta pela independência solidificar seu poder nos anos 1980.
“Mnangagwa entende que não é uma figura popular no Zimbábue, mesmo que tenha o apoio das Forças Armadas. Ele não tem a aura de libertador que Mugabe teve, e está marcado pelo péssimo desempenho do ex-presidente no poder”, afirmou o jornal britânico “Guardian” em editorial. “Seu papel na remoção do ex-presidente pode dar a ele um certo grau de credibilidade, mas suas melhores esperanças [de permanecer no poder] estão na tarefa de ressuscitar a economia nacional e, talvez, na sua capacidade de adiar as eleições marcadas para o próximo verão em até três anos.”
Após o anúncio da renúncia, as reações internacionais foram divididas. A primeira-ministra britânica, Theresa May, e a embaixada dos EUA no Zimbábue destacaram a nova oportunidade que o país tem de reconstruir a economia nacional e assumir um caminho democrático, enquanto o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu a políticos e à população que “mantenham a calma”.
Já Alpha Condé, presidente da Guiné e da União Africana, se disse contente com a decisão de Mugabe, mas lamentou que o líder do Zimbábue tenha deixado o poder “de forma vergonhosa, pela porta dos fundos”.
A crise que causou a queda de Mugabe começou há duas semanas, quando ele, inesperadamente, demitiu Mnangagwa, abrindo caminho à sucessão para sua mulher, Grace, de 52 anos. A medida desagradou à velha guarda da Zanu-PF e aos militares, que tomaram o poder na semana passada, mas mantiveram a porta aberta para que o velho líder saísse de cabeça erguida.
Algumas perguntas permanecem no ar após a histórica renúncia daquele que era, até então, com 93 anos, o mais velho chefe de Estado do planeta. Não houve declaração sobre o futuro de Mugabe. O paradeiro da primeira-dama — conhecida como “Gucci Grace” por seu gosto extravagante e compras milionárias — ainda é desconhecido.
Mnangagwa, que se refugiou na África do Sul, ainda não retornou ao Zimbábue. Fontes da Zanu-PF indicaram que ele deve assumir a Presidência o mais brevemente possível. Em nota divulgada ontem, ele pediu união: “Meu desejo é me juntar a toda a população do Zimbábue numa nova era, na qual a corrupção, a incompetência, a preguiça e a decadência social e cultural não serão toleradas. Neste novo Zimbábue, é importante que todos deem as mãos para reconstruirmos nossa nação. Não é um trabalho apenas para a Zanu-PF, mas para todo o povo.”
Na última semana, a união de diferentes correntes políticas do país contra Mugabe gerou expectativas de que uma coalizão possa se formar na fragmentada oposição.
— Concordamos que, por enquanto, o inimigo do meu inimigo é meu amigo — afirmou a juíza Fadzayi Mahere, desafeto do ex-presidente.
A incerteza não impediu que celebrações tomassem conta do país. A Praça da União, em Harare, foi tomada por manifestantes que, em meio a sorrisos e lágrimas, agitavam a bandeira nacional.
— É melhor coisa que já aconteceu ao Zimbábue — afirmou a jovem Perseverance Sande, de 20 anos, ao “New York Times”. — Estou esperando por este momento há muito tempo.

