Início Mundo Venezuelanos se dividem diante de acusação de ataque terrorista
Mundo

Venezuelanos se dividem diante de acusação de ataque terrorista

Envie
Envie

BUENOS AIRES — Os últimos capítulos da crise política venezuelana deixaram mais perguntas do que respostas, em meio a um conflito que já matou 77 pessoas. A denúncia por parte do presidente Nicolás Maduro de um suposto ataque terrorista não convenceu a grande maioria dos venezuelanos, que ontem se perguntaram se as imagens de um helicóptero do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (CICPC) sobrevoando o Palácio Miraflores e supostamente atirando granadas ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) — elas nunca foram mostradas — eram parte de uma tentativa de golpe contra o governo ou, pelo contrário, uma espécie de autogolpe ou operação montada pelos próprios chavistas para culpar a oposição e intensificar a repressão.

Aumentando o clima de perseguição aos opositores, o TSJ informou ontem, em nota, que convocou a procuradora-geral da República, Luisa Ortega Díaz, a comparecer em 4 de julho a uma audiência que decidirá se irá levá-la a juízo, proibindo-a de deixar o país e congelando suas contas bancárias e bens.

Antes mesmo da decisão do TSJ, a procuradora havia reagido com veemência aos eventos da véspera:

— Parece que todo o país é terrorista, um alto percentual dos venezuelanos é terrorista. Nelson Mandela, prêmio Nobel da Paz, foi acusado de ser terrorista. Realmente, o que temos é um terrorismo de Estado.

No que foi, talvez, seu discurso mais duro desde que tornou-se evidente sua dissidência em relação ao governo, Ortega Díaz prometeu “defender a democracia e a Constituição com a vida”.

— Os magistrados do TSJ estão revogando a Constituição, e não o permitirei. O que fizeram com a Assembleia Nacional (AN), que não está em desacato, isso não existe — declarou a procuradora, que já denunciou a ruptura da ordem constitucional e considerou a Constituinte de Maduro uma violação da Constituição de 1999, aprovada pelo governo de Hugo Chávez.

A atuação de um piloto do CICPC, até ontem desaparecido, aumentou ainda mais as suspeitas sobre o confuso incidente que levou Maduro a decretar estado de alerta nas Forças Armadas e ordenar a detenção do general reformado Miguel Rodríguez Torres, ex-ministro do Interior e figura destacada do chavismo crítico.

Segundo o chefe de Estado, seu ex-ministro, agora na clandestinidade, esteve envolvido no suposto ataque terrorista, ocorrido no mesmo dia em que o TSJ concedeu ao Defensor do Povo, Tarek William Saab, faculdades para realizar investigações, emitir opiniões e receber denúncias sobre direitos humanos. Até então, somente o Ministério Público podia atuar nesta área. A partir de agora, Saab — que continua leal ao Executivo — terá acesso a atas de investigação do MP e de tribunais civis e militares, e poderá investigar e receber denúncias sobre violações dos direitos humanos cometidas pelas forças de segurança (que se multiplicaram nos últimos meses).

Na opinião do jurista José Vicente Haro, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), “o governo está seguindo à risca o manual de operações cubano e criando um clima de medo que permita aumentar a militarização e a perseguição a opositores”:

— No mesmo dia em que o helicóptero apareceu foram realizados exercícios com aviões da Força Aérea em Caracas. Que alguém nos explique como esse helicóptero conseguiu sobrevoar partes sensíveis da cidade sem ser detectado e detido.

Para ele, “chama muito a atenção que no mesmo momento a Guarda Nacional tenha invadido a AN com misteriosas caixas do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e agredido deputados”.

— Quando todos estávamos olhando para o céu, o Congresso foi alvo de um ataque gravíssimo. Tudo é muito suspeito — enfatizou o jurista.

A crise venezuelana gera extrema preocupação internacional. Ontem, Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou que “o organismo rechaça qualquer tipo de violência”. Já a União Europeia (UE) pediu “o fim urgente” dos atos violentos.

— O mais grave é que corremos o risco de enfrentar uma crise militar — alertou Rocio San Miguel, diretora da ONG Controle Cidadão.

A sensação de descontrole é cada vez maior. Há uma semana, Roberto Picón e Aristides Moreno, membros da Mesa de Unidade Democrática (MUD), foram detidos pelo Sebin com nove pessoas que estavam na casa do segundo, em Caracas. A acusação? O planejamento de um suposto boicote à Constituinte.

Jornalistas também são alvo. Ontem, o brasileiro Paulo Paranagua, correspondente do “Le Monde”, foi impedido de entrar no país. “O ministério que nunca me responde diz que não tenho credenciais”, informou Paranagua à ONG Provea. Em 2015, o jornalista já havia sido alvo de críticas do governo venezuelano por reportagens nas quais expunha a repressão a protestos da oposição. Paranagua, que disse estar bem, embarcou num voo da companhia Iberia que partiu de Caracas.

— O que temos aqui é uma ditadura pura e dura — acusou a ex-deputada María Corina Machado, que tentou impedir a prisão dos dirigentes da MUD.

Siga-nos no

Google News