RIO — Os recentes acontecimentos na Venezuela evidenciaram um crescente descontentamento das Forças Armadas com os rumos do governo do presidente Nicolás Maduro, assim como a determinação do presidente chavista em se manter no poder e levar adiante sua Constituinte. Para José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da ONG Human Rights Watch, especializada em direitos humanos, somente a pressão internacional será capaz de fazer com que Maduro permita a realização de eleições e diminua a repressão a opositores no país.
A situação na Venezuela é gravíssima, e no contexto atual de instabilidade, o chamado do presidente ao uso de armas para conseguir o que não foi conquistado com os votos é de uma irresponsabilidade absoluta. A única coisa que isso pode gerar é mais violência e sofrimento, e isso a Venezuela já tem de sobra.
Começam a surgir certos rachas dentro das instituições militares, inclusive de soldados que resistem a cumprir ordens de repressão. Isso é um ponto-chave. À medida que o custo de continuar a repressão aumentar, eles terão mais incentivos para se desligar e e abandonar o apoio ao regime chavista que até pouco tempo era incondicional.
A violência não tem a ver com a oposição e sua saída às ruas, mas sim com a resposta brutal das forças de segurança que reprimem os protestos, detêm opositores e julgam civis em tribunais militares. O fato da oposição continuar nas ruas é uma reação pacífica a uma ditadura sem escrúpulos. Lamentavelmente o histórico e a reação do governo e das forças de segurança não deixam muitas esperanças de que tudo acabe bem.
Não temos confirmações disso, mas o que é evidente é que Maduro está preso ao poder e não tem qualquer interesse em restabelecer a democracia no país. Essa seria uma nova estratégia nesse mesmo sentido.
Não tenho qualquer dúvida que isso acontecerá. As últimas ações da procuradora deixaram evidentes os abusos das forças de segurança nas ruas, e os abusos do Poder Executivo. O regime não tolera esse tipo de críticas.
A degradação da democracia e dos direitos humanos na Venezuela está piorando exponencialmente a cada dia. Não há qualquer razão para pensar que a situação vá melhorar sem uma forte pressão internacional e multilateral. Para dar fim a esse ciclo de violência é indispensável uma reação forte que pressione Maduro a convocar eleições com observação eleitoral, interromper a repressão, libertar os presos políticos, restabelecer a independência do Judiciário e os poderes da Assembleia Nacional, e permitir o acesso à assistência humanitária.

