Início Rio de Janeiro O desemprego pesa nas costas de um catador de latas
Rio de Janeiro

O desemprego pesa nas costas de um catador de latas

RIO - Os sapatos de couro, a camisa polo azul, a calça social, o rádio de pilha: tudo achado no lixo. Assim como o cinto, todo remendado, que ele encontrou há um ano e é seu bem mais antigo. Na mochila, uma camisa limpa, um casaco de malha fina, documentos e alguns trocados, engordados por uma nota de R$ 50 que acabou de ganhar sem pedir. Caminha uma maratona todos os dias, cerca de 40 quilômetros, segundo seus cálculos, procurando latinhas em toda a Zona Sul, principalmente na Praia de Copacabana — andança que costuma render R$ 70 por dia. Transformou uma rede de náilon, dessas usadas para proteger janelas, num saco com dois metros de altura onde cabem mais de duas mil latas. Seu prazer é deitar ao entardecer sobre aqueles 20 quilos de alumínio e descansar: imagem que desperta a curiosidade de quem passa. Ele adora.

— O povo fica me olhando, dá os parabéns, me chamam de trabalhador. Eu agradeço. Não sou mendigo, apenas moro na rua há três anos. Não quero que sintam pena de mim, tenho saúde e lucidez. Só não tenho carteira assinada.

Sérgio Amaro Vidal tem 52 anos e carrega nas costas o peso do desemprego. Ele é um dos 1,3 milhão de desempregados do Estado do Rio, onde esse número saltou 160% nos últimos quatro anos — pior desempenho entre todos os estados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio Trimestral (Pnad Contínua), do IBGE. Nascido na roça, dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, ele trabalhou como servente de obra desde que chegou ao Rio, em 1993, buscando uma vida melhor do que aquela que seus pais conseguiram dar a ele e a seus 18 irmãos, com quem não tem nenhum contato há pelo menos uma década.

O último emprego de Sérgio foi como servente e vigia de uma obra na Taquara, em Jacarepaguá: ele morava no local de trabalho em condições precárias. Ao ser demitido, foi viver na rua.

Dorme sempre na calçada de um prédio na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, onde tem a amizade de porteiros e moradores. Sérgio faz poesia. Como nunca aprendeu a ler e escrever, guarda os versos na memória. Esses ele criou recentemente: “Quando perdemos algo nessa vida, não devemos reclamar, pois toda folha, quando cai, nasce outra no lugar”.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?