RIO - Enquanto a prefeitura anuncia novidades para melhorar o sistema de transportes no Rio, que inclui o fim da padronização das cores dos ônibus e soluções tecnológicas como wi-fi e entrada USB em cada assento, no dia a dia os passageiros enfrentam problemas graves como mau estado de conservação da frota, irregularidades nos horários e falta de vistoria nos veículos.
Dados obtidos pelo GLOBO, com base na Lei de Acesso à Informação, mostram que, entre 1º de janeiro de 2016 — último ano da administração Eduardo Paes — e 7 de agosto de 2018, os cinco consórcios que operam as linhas de ônibus no Rio, incluindo o BRT, receberam 26.255 multas apenas da prefeitura, que somam mais de R$ 26 milhões. O total equivale a 27 infrações por dia ou mais de uma por hora. As irregularidades são relacionadas à operação das linhas e ao estado de conservação dos veículos.
Para o professor de engenharia de Transportes da Uerj Alexandre Rojas, multar simplesmente não produz resultado, porque existem vários meios de protelar o pagamento, além da possibilidade de contestar na Justiça, uma das formas mais eficazes de ganhar tempo. Na opinião dele, a aplicação de um grande volume de multas demonstra muitas vezes “jogo de cena”, para dar a impressão de que algo está sendo feito:
— O volume de multas e a qualidade do serviço apresentado à população mostram que multar é pouco eficaz.
Na opinião de Rojas, a agilidade da Justiça e o entendimento entre os órgãos fiscalizadores e os consórcios são a melhor forma de buscar uma solução do problema.
Só este ano foram aplicadas 8.079 multas, o equivalente a 37 por dia, contra 9.402 nos 12 meses de 2017 e 8.774 em 2016. A média diária em pouco mais de sete meses de 2018 já superou a do ano passado (25) e a de 2016 (24). A infração com mais registros, entre o começo de 2016 e o início de agosto de 2018, é a falta de vistoria, seguida de desobediência à frota determinada.
Na última sexta-feira, enquanto aguardava pelo 366 (Campo Grande — Tiradentes), no ponto final do Centro, o auxiliar de escritório Adriano Luiz da Silva Santos, morador da Vila Kennedy, não desgrudava o olho da tela do celular. O cuidado fazia sentido. Usuários da linha reclamam que, desde abril, seus veículos praticamente sumiram de circulação. Desde então, a tecnologia transformou-se na principal aliada de Adriano, que recorre ao aplicativo para ter ideia do tempo de espera. Por volta das 10h, o serviço informava que havia apenas dois carros nas ruas, um em cada sentido.
— A demora nos obriga a fazer baldeação e a gastar mais com passagem — reclama Santos.
Quando o ônibus chega, observa-se que a inconstância de horário não é o único problema enfrentado por passageiros. A sujeira e o mau estado de conservação são flagrantes. O banco destinado a cadeirantes está quebrado e com o assento jogado junto ao piso do carro. Uma consulta no banco de dados do Detran mostra outra irregularidade grave: o veículo, cujo número de ordem é D87344, não passa por vistoria há quatro anos. A última foi feita em 2014.
— A prefeitura deveria botar a fiscalização na rua para apreender e retirar de circulação os ônibus sem condições — disse o autônomo Paulo César Alves, morador de Campo Grande.
O rodoviário aposentado Sebastião Martins conhece bem a linha 398 (Campo Grande — Tiradentes), primeiro como motorista e depois como passageiro:
— O carro quebrava direto por falta de manutenção, e já esperei horas durante a madrugada pelo reboque.
Em outras linhas também não faltam problemas. No ponto final da 393 (Bangu — Candelária), na Avenida Presidente Vargas, o ônibus de número de ordem D53633 exibia nos vidros da porta do meio, por onde descem os cadeirantes, a frase: “não abre”.
CONSÓRCIOS CITAM CRISE
A Secretaria municipal de Transportes informou que, das 3.474 multas aplicadas de janeiro a julho deste ano, 347 foram pagas. As demais estão em fase de recurso ou dentro do prazo de pagamento. Das 5.449 multas aplicadas em 2017, apenas por má conservação e frota abaixo do determinado ou inoperância, 4.180 foram pagas (76%).
O órgão afirmou ainda que mantém monitoramento constante e ações de fiscalização frequentes. O Consórcio BRT disse que parte das multas é decorrente “da pior crise que as empresas ainda estão enfrentando, principalmente as que dizem respeito à manutenção dos veículos”. Os demais consórcios também alegaram efeitos da crise para justificar o volume de multas.

