SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de celebrar os 40 anos do axé em 2025, Luiz Caldas diz que está pronto mais 40. Considerado precursor do ritmo, o compositor e multi-instrumentista chega ao final do ano trazendo um show intimista.
Sozinho no palco, munido apenas de um violão, uma guitarra e da própria voz, o músico percorre seus principais sucessos e traz ainda clássicos de outros artistas do axé (e não só do axé): Elvis Presley, Zé Ramalho e Secos & Molhados aparecem no repertório. Do gênero que ajudou a criar, ele traz clássicos de Timbalada, Saulo Fernandes, Banda Mel e Chiclete com Banana.
Na última década, Luiz Caldas se tornou um dos artistas mais prolíficos da atualidade ao mergulhar em um projeto ousado: lançar um álbum por mês. De 2013 para cá, foram 147 discos com cerca de 1.500 canções inéditas, participações de vários artistas e diversidade de ritmos. Ele diz que considera o projeto um trabalho de desconstrução.
Há, por exemplo, um disco só de baião, um de cumbia, cantado em espanhol, outro de reggae, um de pontos de candomblé, outros com versos em rap. Caminha pelos subgêneros do samba, do rock e do forró. Além do trabalho árduo em estúdio para gravar tanto material, o músico encontra tempo para seu projeto nas redes sociais. A cada semana, posta vídeos tocando algo surpreendente para seus 400 mil seguidores: de clássicos do rock a sons eruditos.
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*F5 - Nos últimos anos, sua característica tem sido transitar por todos os ritmos. Você tem o projeto de lançar um álbum por mês, também nessa pegada. Como tem sido isso?*
*Luiz Caldas -* Não deixa de ser um trabalho de desconstrução. Nós temos uma coisa no país que é o rótulo. Mas por que fechar e travar tanto as pessoas? Esse projeto que eu faço é uma desconstrução minha.
*F5- Quantos álbuns você tem no total?*
*Luiz Caldas -* No total, eu não sei. Mas de 2013 até agora, lancei 147 álbuns de todos os estilos diferentes, com parceiros do Brasil todo, como Paulo Miklos, que há pouco tempo gravou comigo, fizemos uma bossa nova maravilhosa. Carlinhos Brown, Seu Jorge, Sandra de Sá, Zeca Baleiro. O bom desse projeto é justamente isso: eu também ajudo meus colegas a voarem de outra forma.
*F5 - E dentro desse projeto tem músicas inéditas, releituras?*
*Luiz Caldas -* Tudo é inédito. Regravação é uma palavra proibida em meu estúdio. Acredito que quando se quer regravar algo é porque aquilo foi bom pra caramba. Então, se você não vai fazer melhor do que está, deixe quieto. Regravei algumas canções minhas por questões tecnológicas ou legais. Direitos autorais, contratos, som, coisas assim.
*F5 -Com relação aos 40 anos do axé, o que você destaca nesse momento?*
*Luiz Caldas -* Destaco felicidade por ser precursor de um movimento tão rico, tão importante para a cultura brasileira. E me refiro ao lado alegre que o país tem. O axé music é responsável por boa parte disso. O samba, por exemplo, traz algumas letras de tristeza, de contestação, o que no axé não é necessário. Você não vai atrás do trio elétrico para ficar se entristecendo. A essência do axé é a alegria.
Me sinto honrado em ver que é um movimento que não foi feito só por mim, mas por gente muito boa. Saulo [Fernandes], BaianaSystem, meus colegas contemporâneos, Carlinhos Brown, Ivete, todos muito importantes no movimento. Eu não criei algo estático, criei algo que amalgama tudo. O trabalho de Durval Lélys é totalmente diferente do de Bell [Marques], de Daniela [Mercury], de Margareth [Menezes], e todos fazem axé.
*F5 - Você já definiu o axé como um liquidificador com vários gêneros musicais. Você diria então que a alegria é a substância comum a todos eles?*
*Luiz Caldas -* É o primeiro ingrediente. Sem a alegria você não faz axé. Se começa a colocar os ritmos sem pensar na alegria que aquilo vai proporcionar, não há sentido. Faça uma valsa.
*F5 - E qual a importância de trazer alegria para o Brasil de hoje?*
*Luiz Caldas -* De sempre. O humor é uma coisa necessária porque o ser humano é essencialmente triste. Ele não é essencialmente alegre e que se entristece de vez em quando. Ele é triste que fica alegre às vezes.
*F5 - Você soube usar bem a ferramenta das redes sociais. Traz músicas desconhecidas, clássicos, explora essa interação com os fãs...*
*Luiz Caldas -* Minha ideia era justamente fazer uma página para quem gosta de ouvir música de todos os segmentos. Evito músicas muito comerciais, que já são muito tocadas, que já está todo mundo escutando. Acho mais legal eu pegar um Tom Jones de 1970 e trazer uma canção dele para que os mais jovens possam conhecer.
*F5 - Você acha que as redes democratizaram o acesso do artista ao público e vice-versa? Você já falou sobre a barreira das gravadoras que havia antigamente.*
*Luiz Caldas -* Quando comecei minha carreira, se o artista falasse algo na TV, o povo só podia escutar. A interação que a internet trouxe derrubou o ego, o pedestal em que o artista se mantinha. As pessoas achavam o artista intocável. Passei cada perrengue para chegar numa gravadora. Ouvi cada coisa de diretores que depois apertaram minha mão e me colocaram no tapete vermelho. Quando vendi 100 mil discos, falaram: "venha morar no Rio, venha morar em São Paulo" e eu não fui. O artista que se mantém no seu lugar, nas suas raízes, não perde sua identidade. É preciso senso de responsabilidade com sua carreira se você quer ter longevidade.
*F5 - Você acha que falta autenticidade aos artistas de hoje?*
*Luiz Caldas -* Não digo autenticidade, é uma palavra pesada. Hoje, você liga a internet e tem uma pessoa cantando bem atrás da outra. E um monte de merda também (risos). Hoje em dia, para fazer sucesso, é dificil criar uma identidade foda. Tem que estudar muito, ralar muito.
*F5 - Que dica daria a quem quer se manter relevante no cenário musical?*
*Luiz Caldas -* O grande problema é subestimar o gosto dos outros. Faça seu som. Goste de você que será mais fácil os outros gostarem. Eu canto minhas canções que fiz há 40 anos atrás com um prazer da porra. Eu só não canto "Fricote" porque acho que a letra não tem mais a ver. E não sou idiota de fazer uma versão.
*F5 - Você comentou que esse contato mais direto com os fãs derrubou o ego. Acha que foi uma questão de humildade sua parar de cantar "Fricote"? Você ouviu as pessoas e decidiu parar?*
*Luiz Caldas -* Tanto ouvi quanto participei de momentos em que senti o sentimento ruim de pessoas que estavam na platéia e eu mesmo decidi [parar]. Mas jamais por imposição, e sim por ser um cidadão e estar a favor do melhor para a humanidade. Como vou fazer um show, principalmente um cara que canta coisas alegres, e deixar uma parte da plateia triste? Se eu só tivesse essa música eu ia ter que cantar só ela (risos).
*F5 - Quais suas expectativas para o Carnaval de 2026?*
*Luiz Caldas -* Carnaval é sempre legal principalmente para mim, como veterano desta festa, ver as novas gerações curtindo uma tradição junto com seus pais. Faço camarote e também levo uma pipoca gigante que curte meu som. É muito prazeroso, apesar daquela loucura toda. Mas Carnaval é loucura mesmo. Agora foram os 40 anos do axé e no ano que vem tá todo mundo com gás para começar mais 40.
*F5 - O que você acha do Carnaval de São Paulo? Tocaria aqui?*
*Luiz Caldas -* Os carnavais de São Paulo, Rio e Belo Horizonte cresceram assustadoramente nos últimos anos. E cresceram da forma correta, porque ainda não estão ligados diretamente ao comércio. O comércio ainda é velado, as contratações, os desfiles. Quando o bicho começar a pegar, vocês vão ver (risos). Mas vai ficar de boa, vocês não vão deixar acontecer o que acontece em Salvador. Eu falo de organização. Mas deixo claro que não é culpa de ninguém, é justamente pelo inchaço natural que a festa tem. Aceitaria, com certeza, um convite para tocar aqui. Eu, em cima do trio, iria abençoar vocês com muito axé.

